Mamíferos

Mamíferos

Vitória era um lugar pacato nos anos 60. Uma ilha de população bem pequena, risonha, muito animada e razoavelmente conservadora. Por onde se andasse, encontrava-se amigos, gente conhecida que se sabia de onde era ou o que fazia. As pessoas eram identificadas pelo nome ou apelido – quase todo mundo tinha o seu – e pela escola em que estudavam, por seu lugar de trabalho, pelo bar que frequentavam, pelo carro que dirigiam, pela rua em que moravam. Praticamente não havia gente desconhecida em cada um dos bairros.

A movimentação das pessoas era bem pequena. Quando necessário, ia-se ao centro da cidade para fazer compras, consultar o dentista ou colocar carta nos Correios. Meia dúzia de sinais ordenavam o trânsito, quando muito. Os duzentos metros de areia da antiga praia do Barracão eram mais do que suficientes para abrigar os banhistas da cidade.

Dançava-se na cidade inteira. Na saleta do Iate Club e no salão do Náutico, em Caratoíra; nos pisos de tábua corrida do Praia Tênis Clube, do Saldanha e do Clube Vitória. Os conjuntos de Hélio Mendes e Edson Quintaes animavam os bailes e as eletrolas mágicas de Jairo Maia animavam as festas. No Álvares Cabral, na Praça Costa Pereira, na pista da Odontologia, no alto do prédio do Banco Mineiro, no porão do IBEU e no anexo da FAFI, dançávamos com moças mais experientes.

Paralelamente aos sons da bossa nova, recrudesciam os tempos de insegurança em função da  política dura e do desacato das autoridades. Mundo afora, a juventude defen posições libertárias nas coisas do sexo, das drogas, das artes e da política. No Brasil, a turma da Tropicália marcava o ritmo e dava o tom da contra cultura.

Aqui, a vanguarda era a banda Os Mamíferos. Os animais não eram muitos. Afonso Abreu, Marco Antônio Grijó e Mário Ruy formavam a base. Arlindo Castro, Rogério Coimbra e Sérgio Régis engrossavam a ala dos compositores, ao lado de Aprygio Lírio, que soltava a voz e mostrava as garras na linha de frente.

O quartinho dos fundos da nossa casa na Rua Madeira de Freitas foi transformado em estúdio para ensaios acalorados. Sem ar condicionado. Os palcos disponíveis para bandas de rock eram bem poucos. A boate Macumba e o Teatro da ABI eram as opções. Os festivais de música foram momentos de glória e de muita pirraça. Tocar em público era uma batalha, sempre. Os instrumentos eram escassos, não havia mesa de som, os plugs teimavam em não funcionar e a microfonia era algo bem comum.

Os Mamíferos ovam a caretice, o status quo, o bem comportado. Convictos, eles provocavam o público com sons inovadores e estridentes, letras líricas e contundentes, roupas estranhas e rostos pintados. Os fãs não eram tantos, naturalmente, mas suas crias foram muitas, nas décadas seguintes.

Escrevo tudo isso porque fui ver a Banda Aurora Gordon reviver Os Mamíferos no Teatro Carlos Gomes, na semana passada, e sai de lá com um CD nas mãos e o passado na cabeça.

Foi emocionante ouvir novamente a sugestão de Mário Ruy e Sérgio Régis: “Se você tem um problema prá resolver, presta atenção no que eu vou dizer: agite antes de usar” e os apelos de Rogério, em “Antonieta, Antonieta, arranca a maçaneta dessa porta que te fecha” e de Afonso, em “Mônica, Verônica, atômica, atônita. Sem seus passos nas calçadas e as pessoas congeladas as vidas pedem silêncio; tira a poeira dos seus olhos…”. Pena que não tocaram Via Aérea, avisa: “Olho, amo e grito, corro e choro, mas não canto estribilhos, nem tampouco imploro. Sou meu próprio vôo”.

Vitória, 21 de Agosto de 2011

Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA

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