Limpeza
Tudo começou com a decisão de tirar os parasitas da orquídea que deveria ser transferida para um vaso de barro clarinho. De longe, parecem fazer parte da planta. São pontos escuros agarrados nos dois lados das folhas e nos caules. Olhando com mais atenção, vê-se que não deveriam estar ali.
Antes mesmo de terminar o serviço, vi que todas as demais orquídeas do jardim – mais de trinta – sofriam do mesmo mal. Como se não bastasse, todas elas estavam cobertas com uma camada fina e homogênea de pó preto, agregado com a umidade da maresia, coisa farta por aqui.
Com tempo sobrando, tratei de limpar uma por uma, cuidadosamente, com as pontas dos dedos e uma esponja de cozinha. Um trabalho maneiro e de resultados imediatos. A planta recupera suas cores naturais, um aspecto saudável e você fica recompensado, como se tivesse salvado a humanidade.
Estávamos em plena arrumação para as festas de fim de ano, dando os últimos retoques no alpendre construído na lateral da casa, onde poderemos enfrentar o calor de verão em condições bem favoráveis. Comer, coçar e limpar, basta começar.
Nem precisei de óculos para ver que as pedras ao redor da casa estavam totalmente cobertas por uma grossa camada de pó de minério. Algo medonho, mas nada que não pudesse ser removido com a ajuda de uma dessas máquinas de lava-a-jato, que adotei faz tempo. Práticas, portáteis e eficientes, elas também servem de brinquedo para marmanjos desocupados.
Com movimentos estudados e sistemáticos, limpei primeiro as pedras da entrada da casa e em seguida as da lateral. Dava gosto ver a sujeira ir sendo retirada pelo impacto do jato d’água sob alta pressão. A textura do granito ia reaparecendo aos poucos, deixando o piso bem mais claro e contrastado.
Um simples erro de pontaria fez surgir o bege claro do muro, que parecia limpo. Reajustei o jato para que ficasse mais difuso e a cor original surgiu, agradecida. Um olhar atento mostrou troncos de ibisco cobertos por uma mistura de pó preto com lodo velho. Um jato mais concentrado trouxe de volta o amarelado da casca. O verde das folhas foi obtido com água em regime de pulverização.
Ao desligar a bomba, lembrei-me dos dois homens que limpam as praias no começo das manhãs. Eles cumprem uma rotina serena e coordenada. Varrem as folhas das castanheiras e tudo que o mar deixa na areia, incluindo pedaços de pau, plásticos e sementes de mangue. Recolhem, com muito mais esforço, a sujeira produzida por homens, mulheres e crianças em dias de lazer à beira mar. Uma montoeira de coisas descartáveis: garrafas pet de todo tipo, cadeiras quebradas, plásticos, papéis, palitos de picolé e uma enorme quantidade de casca de côco verde. Varrem tudo, formam montinhos, colocam tudo em sacos enormes que carregam até a calçada e levam, em um carrinho, para onde o caminhão possa recolhê-los. Trabalham em silêncio e tranquilos.
Vê-los no ofício de limpar aquele pedaço do mundo sempre me faz pensar na vida. Passo por eles ao andar de um lado para o outro, em busca de saúde. A nossa saudação é sempre cordial e solidária. Imagino que saibam que aprecio aquele trabalho discreto e generoso, embora pouco valorizado pelos que usufruem dos seus resultados.
Há quem pense que sujar o mundo seja um direito inalienável do homem consumidor, quem adote o pressuposto de que sempre haverá quem limpe o que ele sujar. Imagino que algo parecido passe pela cabeça de quem decide o funcionamento das empresas que processam minério de ferro e carvão na Ponta de Tubarão e sujam tudo por aqui.
Vitória, 26 de dezembro de 2012
Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA
