Caras Pintadas

Caras Pintadas

Resolvi finalizar o que tinha escrito e, por um pequeno descuido, desses que você não esquece para o resto da vida, deletei tudo o que havia feito. Diante da tela acinzentada, fiquei pensando na durabilidade das palavras quando escritas em uma folha de papel com uma tinta apropriada. O texto era mais ou menos assim.

***

Em uma reportagem espetacular, o jornal “O Estado de São Paulo”, na sua edição de domingo, 20 de novembro de 2011, informa e comprova que foi uma banda capixaba de rock a primeira a subir aos palcos com as caras pintadas. Até então, esse mérito era atribuído às bandas de Alice Cooper e de David Bowie. Os Secos & Molhados carregavam a fama de terem lançado a moda no Brasil, cantando com pouca roupa, muitas plumas e maquiagem pesada. Lembro-me de um show deles em Brasília por volta de 1973, tempo em que o Dzi Croquettes, uma animada trupe de rapazes, dava espetáculos de música e dança sofisticadíssimos, sob a batuta do dançarino americano Lennie Dale. Vivendo em comunidade, eles se utilizavam de uma fina linguagem de deboche contra o mundo careta e o regime militar, que tudo proibia. Foram-se todos para a França, para deleite do mundo.
O reparo veio depois de mais de 40 anos de espera. Finalmente, Afonso Abreu, Marco Antônio Grijó, Mario Rui e outros Mamíferos de criação foram reconhecidos como os primeiros roqueiros a subir nos palcos usando fantasias e caras pintadas para chocar o público. O “Estadão” dedicou ao tema duas páginas inteiras do seu Caderno matéria de capa, com diagramação primorosa e texto convicto, traz fotos e depoimentos de artistas famosos, de gente que fez e de gente que viu. O feito se deu durante a apresentação de um rock pesado num festival de música popular em fins dos anos 60, no ginásio lotado do SESC, nas imediações do Parque Moscoso.
Trago esta notícia ao conhecimento dos leitores na tentativa de compensar os impactos negativos do noticiário dos últimos dias e, sobretudo, para mostrar que nem tudo está perdido. Falo do vazamento de petróleo na Bacia de Campos e da provável extinção do sistema FUNDAP, dois temas que estão presentes em qualquer roda de empresários e gente de governo. Há muita indignação e desassossego no ar.
Pelo que se pode saber, as falhas ocorridas em alto mar foram frutos da ganância e do descaso de uma companhia petroleira reincidente. O vazamento foi comunicado à população por meio de uma nota cínica, que tentava mostrar o desastre como algo natural e de menor importância. Os fatos deixaram a nu o despreparo de empresas e de órgãos de governo. O que se viu foram homens públicos dando cabeçadas, disputando holofotes ou brincando de pique esconde. A corrida desenfreada por aumentos expressivos na produção de petróleo e a batalha pelos royalties ganharam um novo elemento. Determinante do uso de bom senso em larga escala, espero.
Como se isso não bastasse, a iminente eliminação do FUNDAP, incentivo fiscal criado em tempos de vacas magérrimas e café aguado, representa uma grande ameaça à felicidade geral aqui no Espírito Santo. Há quem diga que, no começo, o estrago maior se dará na região da Grande Vitória, onde muitas empresas fecharão as portas e muita gente ficará sem emprego. Em seguida, o comércio e o mercado imobiliário sofrerão o baque da falta de dinheiro e de confiança. Depois, faltará merenda escolar e recursos para pagar o funcionalismo em praticamente todos os municípios. Os mais sarcásticos estão dizendo que, em compensação, vai faltar verba para manter as Câmaras de Vereadores.         

Vitória, 28 de Novembro de 2011
Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *