40 anos
Antigamente, 40 anos era tempo mais do que suficiente para expressar uma existência. Hoje, equivale a metade de uma vida. Vivemos bem mais que o pessoal que chegou antes da penicilina, do antibiótico, dos exames de ressonância magnética e coisa e tal.
Digo isso porque desses estive no jantar de comemoração de 40 anos de formatura da minha turma de engenharia da UFES, ao lado de bem mais da metade dos sobreviventes. Todos sessentões saudáveis e satisfeitos da vida. Não havia ninguém com cara de derrotado.
Alegria contagiante, abraços apertados entre pessoas amigas que não se viam há anos. Veio gente do Rio, São Paulo e Salvador. Houve quem trouxesses fotos comprobatórias, livro caixa com as receitas e despesas da viagem por terra a Bariloche, da solenidade no Cine Juparanã e da festa no Clube Libanês. Ouvimos e contamos histórias passadas em sala de aula e no pátio de recreio, lembranças marcantes, guardadas em detalhes por quem tem boa memória.
Fizemos discursos emocionados, ressaltamos o valor da amizade e do pertencimento, a alegria de estarmos vivos e a satisfação de podermos festejar juntos. Teve gente que acompanhou tudo calado, por timidez intrínseca ou prudência coronariana. Alguns, por razões similares, sentaram-se longe da cadeira que servia de púlpito para que engenheiros mais corajosos pudessem abrir o peito e dizer palavras afetuosas aos colegas de cabeça branca.
A única engenheira da turma estava presente, chorando de tanto rir, como lhe é próprio. Alguém lembrou que não passavam de meia dúzia as mulheres que freqüentavam as salas de aula da Escola Politécnica, no bairro de Itararé.
Também estavam na festa muitas das namoradas dos Engenheirandos 70, transformadas em companheiras de vida toda e, mais recentemente, em avós animadíssimas. Soube que depois de contarem vantagens e gracinhas dos netos, elas reclamaram indignadas do pó preto brilhante que teima em sujar as mãozinhas, os joelhos e os pezinhos dos que engatinham pela casa.
No segundo ano da escola, freqüentei festas na casa de hóspedes de Tubarão, recém construída. O porto de embarque de minério já operava calmamente, expressando progresso. Um daqueles sorridentes engenheiros defendeu, com convicção técnica e muito bom senso, ao voltar da Inglaterra, que a usina siderúrgica fosse implantada mais ao norte, lá para os lados de Aracruz. Evitaria a sujeira trazida pelo vento Nordeste. Não antou.
Na semana passada, minha filha caçula apresentou o projeto de graduação em oceanografia, em que comprovou cientificamente que o minério de ferro interferiu negativamente no desenvolvimento das larvas dos ouriços-do-mar que tiramos na ponta da Ilha do Boi.
Ano passado, por não acreditar nos homens, pedi a Papai Noel que resolvesse o problema do pó que cai sobre nós, riamente. Tendo a acreditar que a ventania que derrubou dois descarregadores de carvão tenha sido coisa dele.
Mais animado, neste Natal vou pedir ao novo Governador que lance mão de seus poderes e habilidades para ajudar o bom velhinho a resolver o nosso problema e aproveitar para não permitir que se repitam lá em Anchieta os mesmos erros cometidos aqui em Vitória, há quase 40 anos, tempo mais do que suficiente para aprender o valor da vida.
Vitória, 22 de Dezembro de 2010.
Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA
