Sinuca de bico

Sinuca de bico

Votei em Lula três vezes, com boa convicção. Ainda mais convicto, não votei em Dilma. Por duas razões elementares: prefiro a alternância de poder e sei que não convém eleger postes nem pilastras para governar um país. Lembro-me que cheguei a tratar desse assunto numa crônica, ressaltando o risco de soluções artificiais como aquela. Ponderei que, se a cachaça revela a alma do bêbado, o poder deixa livre de amarras os traços de personalidade, inclusive um eventual espírito autoritário de quem vira chefe. A história está repleta de exemplos de mandatários nefastos.

Na época, achei perigoso quando Lula inventou Dilma como sua candidata a presidente e a apresentou como uma baita gerente, mãe disso e daquilo. Milhões de brasileiros acreditaram na palavra dele e elegeram uma mulher convicta de si, cheia de opiniões, brava que só. Em pouco tempo, ela já dava demonstrações de prepotência no trato pessoal, de desprezo pela realidade dos fatos, de total impaciência com as coisas da política, enfim, de sua incapacidade para presidir o país. Deu no que deu e multidões insatisfeitas encheram as ruas. Que mentira tem perna curta todo mundo sabe, mas ainda não aprendemos que marketing político é instrumento poderoso para engambelar multidões. Tanto que algumas mentiras e jogos de cena tornaram possível a proeza de viabilizar uma reeleição improvável.

A expressão de total alienação no rosto de Lula, sob o sol quente, na frente do Palácio do Planalto, ouvindo Dilma repetir bordões de guerra para um pequeno grupo de seguidores, retrata a sinuca de bico em que ele nos botou. Estamos, todos, diante de uma situação complexa e delicada, submetidos a convicções acirradas. Pode-se dizer que nunca se viu tanta gente com opinião formada e com boa disposição para enfrentamentos. Otimista, acredito que com os resultados dos desdobramentos das operações Lava Jato e afins estarão criadas condições excepcionais que podem favorecer o surgimento de um estadista para liderar mudanças inadiáveis na política brasileira. Temer sabe disso muito bem.

Vitória, 18 de maio de 2016

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

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