Tempo de sinal
Bem que andei tentando encontrar um assunto leve pra fazer a crônica desta semana mas foi difícil, muito difícil. É que, como deve estar acontecendo com muita gente, as minhas atenções andam concentradas nas coisas da política federal. Tenho acompanhado de perto a evolução dos fatos pela imprensa e tentado entender e interpretar os acontecimentos em conversas com amigos. A cada dia surgem fatos relevantes, muitos deles inesperados. Em meio a uma enorme crise de confiança, a busca por espaço e poder aquece o jogo de forças, alterando as condições de equilíbrio do conjunto. Vive-se um ambiente de tensão e incertezas como há muito não se via por aqui, que estarrece e desanima toda e qualquer pessoa livre da obrigação pragmática de justificar bandidagens e safadezas com dinheiro público. Tudo agravado pela retração da economia.
Falando nisso, faz tempo que acompanho o vigoroso comércio de sacos de algodão grosso, trazidos de Minas, que se estabeleceu nas esquinas movimentadas, em plena luz do dia. Não cabem afirmativas categóricas, mas é bem provável que a falta de dinheiro também tenha afetado esse tipo de negócio: no começo, eram três sacos por dez reais, depois quatro e, de uns tempos pra cá, estão em promoção de cinco por dez. A promoção tem sido praticada por todos os vendedores de sacos e anunciada nas tabuletas que eles mostram aos motoristas. Pelo que se vê, ou uma única empresa monopoliza a distribuição de sacos para fazer pano de chão – produto indispensável para limpar o pó preto nosso de todos os dias – ou alguns comerciantes mais espertos se organizaram em cartel para dominar o mercado, atuando em parceria com as grandes empresas que lançam o pó sobre todos nós, diariamente, garantindo a demanda.
No começo da semana consegui observar um artesão magrinho que estava no canteiro central esperando o sinal abrir para atravessar a avenida congestionada. Apoiado na alça de um carrinho de duas rodas, equipado com uma dessas caixas de despachar animais em aeroporto, ele segurava um mostruário dos produtos que faz pra vender: pulseiras, colares e brincos de metal. De roupa escura e sandálias de couro cru levava na cabeça uma boina dos que amam o reggae e adoram Bob Marley. Sua barba e seus cabelos eram bem maiores do que os meus. Ao seu lado, um cachorrinho de pelos longos e também desgrenhados vinha preso ao carrinho por uma corda encardida em volta do pescoço. Paciente, ele demonstrava saber esperar o sinal abrir para seguir em frente. Vistos de longe, aqueles dois davam a impressão de estarem nas estradas da vida há um bom tempo. Imaginei que em situações de perigo potencial e, sobretudo, em viagens, o homem enfiaria o cachorrinho na caixa, junto com o material e as ferramentas, e sairia puxando o carrinho tranquilamente, em busca de novos mercados.
Pude acompanhar, agora pela janela do carro, uma mocinha elegante em seus trajes de ginástica brincando com um labrador amarelado muito simpático, bem no centro da quadra para aeromodelismo. A brincadeira era jogar longe uma bolinha de tênis para o cachorro trazer de volta, para ser novamente arremessada. Depois de duas jogadas, para o completo desconsolo do cachorrão, a bola foi guardada numa bolsa, de onde surgiu uma guia colorida que foi engatada na sua coleira reforçada. Perfeitamente adestrado, ele parecia saber que a brincadeira havia chegado ao fim e que era hora de ir pra casa. Isso me fez pensar na dificuldade que muita gente tem de perceber a hora de parar tudo, pedir pra sair e voltar pra casa.
Vitória, 19 de agosto de 2015
Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA
