Nas franjas do Caparaó

Nas franjas do Caparaó

Saímos em comboio, com o dia amanhecendo, em direção ao Caparaó. Pegamos a estrada bem vazia e como passamos por Iconha ainda muito cedo, ninguém comeu o tradicional sanduiche de pernil do bar do Almeida. Ao entrarmos no contorno de Cachoeiro, demos de cara com o pico do Itabira, em sua imponência eterna. Fiquei meio decepcionado e entristecido com o que vi pelas janelas do carro, depois de Celina: muito morro coberto com capim baixo para alimentar rebanhos pequenos, pouquíssimas roças de café e praticamente nenhuma plantação expressiva de fruta e de hortaliça. Localizei raríssimas áreas de mata nativa e muitos plantios de eucalipto, já em fase de corte. Parece ser uma região onde predominam fazendas maiores, um tipo de ocupação bem diferente do de outras regiões do Estado, sobretudo aquelas onde se instalaram os imigrantes europeus, dividida em pequenas glebas, muitas delas com aproveitamento intensivo do solo e produção bem diversificada.

O motivo da viagem era dos mais nobres: plantar espécies frutíferas no lote que uma das amigas preferidas de Diana, nossa caçula, comprara em Pedra Roxa, no pé da serra do Caparaó. O terreno fica no topo de um morrinho, com um rio passando lá embaixo. Ele expressa o desejo de possuir um pedaço de chão naquela região, que esconde belezas quase intocadas e vem atraindo a atenção de pessoas cansadas da correria e da violência nas cidades. Se as mudas vingarem, Lídia terá um pomar bem sortido: laranja, limão, goiaba, manga, cereja, abacate, maçã, pera, uva, pêssego, cajá e uma espécie de sapoti americano. Da minha parte, plantei um pé de romã roxo nascido de semente de fruta importada, comprada em São Paulo. De quebra, levei uma muda viçosa que brotou na sombra da nossa jabuticabeira e um galho reforçado da dama da noite que nos acompanha desde os idos de 1970. O pessoal mais disposto da empreitada tratou de cavar covas fundas e de colocar quantidade generosa de esterco de boi e de calcário, para corrigir a acidez do solo.

Sou homem de uma única supertição. É coisa bem antiga, surgida e confirmada na prática: pescaria marcada com muita antecedência nunca dá certo. É mar ressacado, vento sul e chuva na certa. Como a expedição fora marcada com mais de dois meses de antecedência, não deu outra: depois de longa estiagem, começou a chover nas franjas do Parque Nacional do Caparaó, justamente na véspera da nossa chegada. Foram três dias com céu encoberto, alternando mormaço abafado, garoa fininha e pé d’água violento.

Como mais uma comprovação de que há males que vêm para o bem, as chuvas que atrapalham o turismo rural são as mesmas que irrigam a plantação. Como nem tudo são flores e a alegria não é algo permanente, como limo é coisa que escorrega e tem muita gente que não está acostumada a andar em pedra molhada, um escorregão de pai nos fez levar menino pequeno a hospital em Alegre para confirmar que o galo que cresceu na cabeça dele não era nada sério. As comemorações foram animadíssimas, com a parentada bebendo, comendo e falando alto ao lado de um fogão a lenha queimando os pedaços de eucalipto que recolhemos na estrada, na volta.

Patrimônio da Penha, onde alugamos uma casinha muito simples, é um lugar especial. Não sei exatamente a origem e as razões, mas por lá vive e circula gente que optou por padrões alternativos de vida. Ainda que o resto da nossa turma nada tivesse de parecido com os hippies de antigamente, fiquei com a impressão de que a minha barba branca e os meus cabelos compridos facilitaram a minha ambientação.

Vitória, 16 de setembro de 2015

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

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