Cadê o futuro que estava aqui

Cadê o futuro que estava aqui?

Acabo de passar uma semana de férias em família, de frente para o mar das Alagoas, e mais três dias respirando o ar das montanhas capixabas ao lado de amigos risonhos. Foram dez dias sem ao menos olhar uma televisão funcionando, abrir uma revista semanal ou folhear um único exemplar de jornal. Só na noite de segunda feira feriado foi que resolvi me inteirar um pouco das novidades do que estava se passando na política.

Gosto de acompanhar a movimentação dos que já estão e daqueles que estão pretendendo chegar ao poder. Os últimos tempos, como se sabe, têm sido um prato cheio para quem se distrai observando as mudanças no ambiente político e o jogo bruto pelo poder. Confesso que não me recordo de tempos tão férteis em situações e fatos tão expressivos como os que surgem a cada edição de jornal, a cada noticiário da TV.

A falta de liderança, paciência e competência em dosagens adequadas para o exercício do cargo de presidente em meio a uma guerra de foice entre partidos supostamente aliados e a atuação de servidores públicos determinados a detectar e comprovar safadezas destinadas a sustentar um projeto de poder são ingredientes mais do que suficientes para abastecer as emoções e segurar a audiência. De uma hora para outra, como que por um passe de mágica, denúncias fundamentadas detonam a suposta honradez de gente do governo, de líderes da oposição e de empresários articulados com mandatários do dia. Comprovações oficiais de pagamentos de propina para familiares de líderes políticos devem ter gerado muita raiva e quebrado certezas da impunidade. Ao lado disso, os descalabros na economia justificam e reforçam a queda abissal nos índices de popularidade de governantes desastrados e prepotentes.

Qualquer olhar atento consegue perceber o desespero do governo praticando o troca-troca de favores com políticos de menor envergadura para barrar a movimentação de políticos ameaçadores de maior envergadura. São visíveis as tensões nas reuniões sucessivas para tentar encontrar saídas para os impasses da semana e acessos a zonas de segurança para tomar fôlego. Salta aos olhos a felicidade incontida dos que conseguem extrair da governante desidratada nomeações de aliados e passam a cantar de galo em terreiro alheio, bem como a cara dura dos que entregam mais uns dedos e outros anéis para continuar as barganhas por apoio. É notória a substituição da tristeza de cada apenado por uma alegria chocha, encabulada, ao voltar pra casa de tornozeleira eletrônica por ter entregue à polícia um pouco do que sabe sobre as falcatruas de que participou. Nestes tempos, valiosa é a esperteza política para mobilizar adesões e armar arapucas que ajudem a neutralizar jogadas brutas de pretendentes ao poder, assim como a criatividade e a sofisticação das demandas por pronunciamento das instâncias da justiça com base no rigor da lei e na sua adequada interpretação.

O fato é que ando preocupado com a situação que se estabeleceu no país. Nada que possa ser explicado por razões ideológicas ou compromissos político-partidários: o meu desassossego fica por conta do crescimento vertiginoso dos crimes contra a vida e do desprezo aos valores mais nobres dos homens, do emperramento da economia e dos delitos em larga escala contra a coisa pública. Lamentavelmente, como deve estar acontecendo com muita gente, experimento uma sensação de impotência diante do desgoverno e, sobretudo, da falta de perspectivas. Logo eu, que tantas vezes fui taxado de otimista inveterado.

Vitória, 14 de outubro de 2015

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *