Normalidade aparente

Normalidade aparente

Passei os olhos no jornal de segunda-feira em busca de novidades. As notícias de crimes eram as de sempre, variando apenas a quantidade de tiros e de facadas, a idade do morto, a relação com o assassino e o local do acontecido. Quanto aos acidentes nas estradas, os registros eram parecidos com os de edições anteriores: as variações ficaram por conta do tipo de veículo, quantidade de feridos e vítimas fatais, os motivos da viagem, se o motorista estava embriagado ou se perdeu o controle da direção, se a batida foi frontal ou se o carro saiu da pista e caiu na ribanceira.

No lado dos esportes, livre das imposições da Copa, o noticiário mostra que as competições vão se realizando normalmente. Ganha destaque o sucesso do meu Fluminense, que encosta no líder do Brasileirão em ótimas condições para chegar na frente. Melhor do que isso, reafirma que o Flamengo volta a segurar a lanterna com firmeza e convicção. No canto da página, a notícia sobre o sucesso das nossas meninas do vôlei lá na Itália. Elas aparecem rindo e abraçadas, de olho na lente da câmera, como que querendo compartilhar a alegria com os parentes e os amores que deixaram por aqui. No fim de semana assisti duas partidas pela TV e posso afirmar que, alem de bonitas, elas formam um time coeso de atletas danadinhas, aguerridas e determinadas. Não vi ninguém chorando de medo.

No campo da política, encerrado o período de troca-troca e das negociações de apoios, já aparecem as tradicionais imagens de candidatos em feiras-livres abraçando feirantes e fregueses e as de políticos de braços para cima, de mãos dadas, sorrindo para os fotógrafos em reuniões nas cidades do interior. Embora as matérias tentem destacar os chamados diferenciais de cada candidatos, um fato chama atenção: a preferência que eles têm pelo azul. Não sei se o leitor já reparou, mas a maioria dos políticos veste camisa azul quando em campanha. Muito provavelmente para sair bem na foto. Imagino que tal preferência encontre fundamento na psicologia dos eleitores desconfiados. Algum marqueteiro famoso deve ter estudado o assunto e concluído que o azul claro tem o poder de criar uma espécie de aura de credibilidade no candidato. Também se pode ver que são muitos os candidatos usando paletó, mas sempre sem gravata. Talvez façam isso na expectativa de passar a mensagem de que são homens sérios e, ao mesmo tempo, descontraídos. Poderosos, porém acessíveis.

Como era de se esperar, o noticiário com denúncias que envolvem candidatos em ascensão e autoridades governamentais engrossa e se renova. Praticamente não fala mais em aeroporto nas terras do candidato de oposição, mas mostra contra-ataques ao pessoal que está querendo ficar mais um tempinho no poder, destacando a nomeação de esposas de companheiros para empregos-fantasma com salários gordos em entidade patronal e retoma o escândalo da compra de refinaria americana pela Petrobras. Desta vez, colocando luz sobre uma encenação deslavada ocorrida na CPI do Senado, na forma de depoimentos previamente combinados de dirigentes da empresa, visando engambelar os resultados da investigação.

Tudo isso me faz antever o que vem vindo nessa campanha eleitoral: o tiroteio será intenso e com chumbo grosso, as denúncias serão frequentes e ardilosas e a gana visceral pelo poder será fator determinante das estratégias e dos comportamentos dos candidatos. Digo isso porque aprendi com a sociologia que os homens se movem por vontade de ganhar e, sobretudo, pelo medo de perder.

Vitória, 05 de Agosto de 2014

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

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