Carneiro medieval

Carneiro medieval

Pela primeira vez, fui ver de perto o festival de jazz (e de comida e bebida) de Santa Teresa, do qual já tinha ótimas referências dadas por parentes e amigos. Em carro lotado, depois de pagar pedágio na BR 101, subimos a serra em rodovia estadual novinha, perfeitamente sinalizada. Difícil imaginar que pudesse ser algo tão bom e tão bem organizado. O que o olho não vê, o coração não sente e a alma não aproveita.

Os shows aconteceram em palco baixo e de bom tamanho, armado na ponta de uma grande área coberta, com cadeira para quem quisesse. Pude ouvir Wagner Tiso com a nossa Sinfônica, a banda de Saulinho Simonassi, a lenda do blues Bryan Lee e o frances Jean Luc Ponty, que não conhecia.

Mas, pra mim, Raul de Souza foi o dono da noite, o senhor dos espetáculos. Antes de começar, com voz já meio fraca, ele avisou que completará oitenta anos em breve e que sopra trombones de vara e de válvula há mais de sessenta. E como toca! Seu som está ainda mais requintado, sutil e melodioso. Conheci Raulzinho no Sexteto Bossa Rio. Gostei tanto que tive vontade de tocar trombone, mas nem cheguei a tentar, por difícil que é. Mal, mal, consegui tirar no violão um trecho do Samba de uma Nota Só e a introdução de Chove Chuva, o que não é lá muita coisa.

Os festivais de Santa Teresa e de Manguinhos renovam os festivais de jazz que aconteceram no Teatro Carlos Gomes, em Vitória, nos idos dos anos oitenta e noventa, sob as batutas de meu irmão Afonso e do saudoso Marien Calixte e os shows no Ginásio da UFES: o jazz melodioso de Dave Brubeck, a música inovadora de Astor Piazzola, o som arrojado do baterista Art Blackey e a bela voz de Sarah Vaughan. Imagino que também façam lembrar emoções vividas no Circo da Cultura ao som de Hermeto Pascoal e Paulo Moura.

Desses dias na montanha só lamento não ter comido um tal Carneiro Medieval que alguém recomendou com força. O nome do prato é provocador dos sentidos e desafiador da imaginação. Ele nos remete a tempos longínquos, quando as pessoas comiam o que houvesse nas imediações, preparado sem grandes requintes em panelas enormes no fogão a lenha ou no calor de uma fogueira. Digo que cheguei a me imaginar sentado em uma grande mesa, ao lado de barbudos barulhentos, atracados em paletas de carneiro assado, como se vê nos filmes de época. Por conta de uma espécie de gula histórica abandonamos a animação de uma rua cheia de gente falante, que bebia vinho e cerveja e comia linguiça frita com polenta.

Deu trabalho encontrar o lugar onde servem o tal carneiro. Uma pousada fora dos limites urbanos, onde se chega por uma estradinha de terra batida, após rodar por uns tantos quilômetros no asfalto. Lá, um rapaz nos disse que a cozinha havia sido transferida para o Parque de Exposição, onde acontecia o festival, para um dos doze restaurantes instalados para atender os visitantes famintos e os que preferissem ficar conversando com amigos que há muito não viam. No parque, fomos informados pelo chef que, Carneiro Medieval, só mesmo em outra oportunidade e sob demanda. Para tentar compensar, ele sugeriu costelinha de porco confitada na banha, acompanhada de massa caseira.

O fato é que descemos a serra extremamente satisfeitos com o programa, rindo do que nos pareceu ser um poderoso marketing culinário, capaz de provocar água na boca de  turistas gulosos, sem a ajuda de imagem, cheiros e sabores. Sem, ao menos, oferecer informações sobre os temperos e o modo de preparar um carneiro à moda antiga. Qualquer hora dessas voltarei lá pra resolver esse mistério.

Vitória, 11 de junho de 2014

Alvaro Abreu

Escrito para A GAZETA

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