Cachoeirenses Talentosos
Cachoeirense adora se reencontrar. Lá na própria terra, no Rio de Janeiro, na Barra do Jucu, em Brasília, aqui em Vitória. É sempre festa de abraços, beijos e lembranças.
Rapazinho da capital, sempre que ia a Cachoeiro, percorria a 25 de Março bombardeado por senhoras debruçadas nas janelas, contentes em ver de volta um dos filhos de Bolivar e Gracinha.
– Aí, hein, veio ver a terrinha?
– Como você cresceu!
– Seu irmão mais velho veio também? E o mais novo?
Aprendemos a nos reencontrar com data marcada. Nas férias de Julho em Cachoeiro, com direito a desfile e baile de gala, e nas de verão, festejando a volta dos que saiam para estudar e trabalhar fora. E seguimos assim.
Dia desses praticamos o reencontro coletivo no centenário de Gentil Barreto, nordestino que optou por Cachoeiro. Almoço para mais de 200. As atitudes de sempre, por mera saudade de nós mesmos.
Soube pela imprensa que o show de Roberto Carlos foi pura emoção e que, diante dos súditos, o Rei entregou os pontos.
– Eu voltei, aqui é o meu lugar.
Uma amiga que ouviu a confissão bem de perto contou que foi realmente emocionante, sobretudo para ela que se declara errante no mundo, a procura de um lugar para chamar de seu.
– Nasci na Bahia, fui menina pro Rio, estudei na Rural, casei com alemão cachoeirense, vivi em Moçambique, fui para Cachu, moro em Vitória, tenho casa em Iriri…
– Vinho de solo determinado, cachaça de lugarejo definido. A origem é selo de qualidade que distingue e valoriza o produto.
No olhar dela, uma ponta de inveja da minha condição de bairrista convicto. É que nasci na Casa dos Braga. E isso já é muita coisa, hão de convir.
No andar da conversa, ela contou com muita empolgação a novidade que veio trazendo de lá.
– Vamos criar um Monumento ao Talento do Cachoeirense!
– Queridinha, isto é uma declaração de rendição incondicional. Justifica um título de cidadã cachoeirense. Por merecimento.
Entusiasmado e acreditando justa e cabível, sugeri pequena adequação na proposta original, o que ela aceitou, morrendo de rir: erguer um Monumento aos Mil Talentos de Cachoeiro.
A indicação dos talentosos seria democrática, feita por gente de lá, de boa memória.
Uma grande placa de mármore branco perfeitamente polido com o nome de quantos, a seu modo e a seu tempo, ajudaram a criar e a manter o orgulho de sermos de Cachoeiro. Nome e atividade, naturalmente.
Só para dar concretude à idéia, proponho incluir na placa: beque raçudo, médico parteiro, sanitarista animado, baliza da banda, orador oficial em qualquer solenidade, professora de artes, ilustradora modesta, sorveteiro da carrocinha, escalador do Itabira, roqueiro rebelde, fazedor de colher.
Se necessário, e imagino que o será, bastará encomendar mais placas do mesmo mármore branquinho, que lá tem muito e do melhor.
Gente talentosa é o que não faltará.
Alvaro Abreu
Publicada no Caderno 2 de A Gazeta, de Vitória em 26.06.2009
