De carona

De carona

Já não chovia desde o começo de dezembro. Sei disso porque a grama amarelou, de tão ressecada que a terra estava. Molhar planta virou atividade obrigatória, tanto quanto a de varrer o danado do pó preto. E eu precisando de chuva para poder avaliar a eficiência da calha que instalamos no telhado da varanda, ao lado da casa. Fizemos tudo conforme as instruções do fabricante, mas ainda não tinha sido possível testá-la. A onda de calor já havia passado, mas água que é bom, nem pensar.

Finalmente, no fim da tarde de quinta feira passada parecia que o céu ia desabar nas nossas cabeças, como gostam de dizer os amigos de Obelix, o gaulês das histórias em quadrinhos. No caminho de casa, dava pra ver o Mestre Alvaro envolto em uma grossa camada de nuvens cinza escuro, ameaçadoras. A visão do lado do mar não era nada diferente: uma tempestade se formara sobre os navios fundeados lá fora e avançava em direção à terra. Os primeiros pingos grossos já começavam a cair quando avistei um grupo de pessoas caminhando rápido, tentando escapar do aguaceiro que vinha vindo. Uma mulher de uns vinte e poucos anos, seguida por três crianças já taludinhas, carregava um recém-nascido no colo. Mais adiante, uma senhora, que poderia ser avó das crianças, andava meio curvada pra frente, com a bolsa protegendo o penteado. Estavam vestidas pra festa.

Ao imaginar aquelas pessoas totalmente encharcadas, tratei de parar o carro, abrir o vidro e oferecer carona. Fiz isso certo de que a expressão do meu rosto demonstrava a boa intenção de um homem de certa idade e de barbas brancas se oferecendo para levá-las, secas, até um lugar seguro. Sou do tempo em que dar carona era ato corriqueiro, generoso e bem vindo. Os carros eram poucos e os seus proprietários quase sempre conhecidos.

No fim dos anos 60, de mochila nas costas, eu e um grande amigo conseguimos chegar a Marataízes em poucas horas, com apenas três caronas. A primeira, do posto da Polícia Rodoviária até Iconha, na boleia de um caminhão Mercedinha, ouvindo histórias de pescaria; seguimos até Safra no conforto de um Aero Willis novinho, conversando sobre aventuras; de lá até a beira do mar fomos sentados na carroceria de uma caminhonete Ford F100, trepidando nas costeletas e respirando a poeira da estrada de barro. Estudante na Ilha do Fundão, no Rio, voltar pra casa era sempre penoso e uma carona, a salvação. Havia até quem mostrasse tabuleta indicando o destino pretendido. Em João Pessoa, sempre dava ponga no carro oficial. Tadeu, o motorista, já ia parando quando avistava aluno da universidade nos pontos de ônibus.

Como deve acontecer com muita gente, faz um bom tempo que parei de oferecer carona para desconhecidos, sobretudo para mulheres e crianças. Isso, apesar de continuar tendo dó de quem caminha sob sol escaldante, de quem volta da escola no escuro das noites ou que ande apressado para fugir de um toró. É que, das últimas vezes que o fiz, passei desconforto por ter provocado emoções de pavor e repúdio. As recusas me fizeram pensar que o gesto é confundido com assalto, tentativa de sequestro ou outros crimes do gênero.

Naquela tarde, por todas as circunstâncias, achei que a minha oferta de carona seria muito bem aceita. Quem dera. A recusa me foi dada pela mulher mais nova com expressão de medo estampada no rosto, apertando a criança contra seu corpo e fazendo sinal para que as três meninas se afastassem dali. De quebra, ainda recebi um olhar fulminante da tal senhora que parecia ser avó das crianças.

Vitória, 21 de Janeiro de 2013

Alvaro Abreu 

Escrita para A GAZETA

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