Pertinho de casa
Parece que tudo começou com um desentendimento entre dois homens poderosos. Um bem mais importante do que o outro, do que todos os demais. Isso é o que se dizia na época. Sabe-se que corria negociação de apoio político visando garantir maioria na câmara dos deputados ao partido do presidente que acabara de ser eleito com votação expressiva. Era indispensável contar com uma base parlamentar que assegurasse tranquilidade ao novo governo.
Até hoje não fiquei sabendo dos motivos da discórdia tão explosiva, mas bem posso imaginar: de um lado, alguém querendo receber mais, muito mais, pelo que estava vendendo e, do outro, o dono da situação querendo pagar pouco para não reconhecer importância. Por certo, as discussões vararam noites, com desacatos e impropérios de todo tipo. Torço para que as mães não tenham sido ofendidas. Briga entre prepotentes não é lugar para genitora nenhuma entrar.
O que se viu na TV foi briga de cachorro grande, transmitida ao vivo de uma sala repleta de políticos, repórteres e muitos mais. De dedo em riste, com palavras medidas e frases estudadas, um deputado ressentido denunciava um ministro chefe e o desafiava cara a cara, exatamente como havia anunciado pela imprensa, dias antes. Dizia que poderoso era ele, que tinha coragem de enfrentar o homem forte do governo, mais forte do que o próprio presidente.
O homem que dizia controlar tudo o que acontecia no planalto olhava seu desafiante com raiva contida, com cara do tipo eu te pego na esquina. Não conseguiu. Perdeu o cargo e logo depois o mandato parlamentar. A cassação do ex-ministro deve ter provocado lágrimas, mas muita gente bateu palma. Tem quem acredite que o presidente teria gostado de ganhar mais liberdade para poder agir a seu modo e critério.
A maioria dos que acompanhavam a política acreditavam que os envolvidos no esquema de compra de votos não seriam processados. A história da república fundamentava os entendimentos. Mas, por mais improvável que pudesse parecer, abriu-se uma denúncia, apuraram os fatos, comprovaram os crimes, identificaram os suspeitos e mandaram tudo para a justiça. Novamente a descrença se estabeleceu: pode até ter processo, mas não vai dar em nada. Aqui, a turma de colarinho branco não vai para a cadeia.
Deu zebra. Sete anos depois, o julgamento entrou no ar, também ao vivo. O relator dividiu o processo em fatias, preparou terreno e foi lendo acusações e provas, mostrando suas opiniões e certezas, fechando o cerco e chamando à responsabilidade.
A cada voto uma surpresa, até atingir a maioria, quase sempre absoluta em todas as votações. Foi assim crime a crime, réu a réu, até fazer ministro experiente defender os acusados mais destacados com a veemência e as estratégias próprias dos advogados de defesa de grandes contraventores. Mesmo blefando ao tentar desqualificar provas relevantes e ao constranger os colegas da corte, foi derrotado por tudo o que constava nos autos e também pela aplicação da doutrina do domínio dos fatos, pois era notório que o mais poderoso de todos sabia de tudo, agia com total desenvoltura e comandava o esquema com mão de ferro.
Falta pouco para terminar o julgamento. As conversas, que no começo eram sobre a existência ou não de crimes e culpados, agora se concentram na impossibilidade de apelação, nos critérios de cálculo das penas de cada réu e na definição da prisão onde os condenados cumprirão as punições. Já tem advogado defendendo que cada qual fique preso perto da respectiva família, para facilitar as visitas. É bem razoável.
Vitória, 14.10.2012
Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA
