Mais um
Estou passando por mais um capítulo na minha vida de patriarca de família grande, dessas que continua crescendo e se espalhando. Antes era bem mais fácil ter muitos filhos. Agora os casais têm no máximo dois, o que fatalmente resultará em avós de poucos netos. Estamos em São Paulo aguardando Antônio, o sétimo neto, chegar. Joaquim, que até agora mantém a exclusividade das atenções no lar, nasceu bem antes da hora. Daquela vez, Manaira, grávida de primeira viagem, telefonou cedinho relatando dores e nem deu para Carol chegar a tempo de acompanhar a movimentação final. Já tínhamos cinco netos, todos de filhos, e aquele seria o primeiro neto de filha. Ela gosta de dizer que são situações bem distintas, e que os homens não entendem as razões.
Desta vez, tão logo soube de um ligeiro desvio nos resultados de um exame de rotina, ela me deixou pra trás e veio correndo para ficar ao lado da filha grávida, que se mantém circulando de um lado para outro totalmente faceira e serelepe. Ela fez bem em vir sem passagem de volta: o nascimento só deverá acontecer mais para o fim do mês, conforme estimado pela ginecologista, durante a consulta que confirmou o estado interessante.
Enquanto o menino não chega, vou fazendo serviços gerais para as filhas ocupadíssimas, incluindo arrumação de estantes, conserto de cadeiras e de cafeteira. Sempre que dá, brinco com Joaquim, nos seus dois anos e meio. Ontem mesmo comprei um daqueles pios tipo cruzeta, feitos para chamar inhambu chororó, que os mestres de bateria costumam usar para fazer a marcação do samba na avenida. Amarrei um laço de barbante para que ele pudesse pendurar no pescoço. Fez um sucesso danado. O moleque aprendeu rapidinho a tirar sons variados, tampando os dois buracos laterais. Tantas fez que a avó tratou de gravar um vídeo e postar na internet. Pelo jeito, o brinquedinho barulhento vai ter que ser escondido quando o bebê chegar. Por prudência, trouxe também um helicóptero, feito de bambu, para ser usado em caso de ataques de ciúmes.
São Paulo, 20 de setembro de 2017
Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA
