Homem na Lua

Acompanhei a chegada do homem na Lua numa pequena televisão preto e branco, com chuvisco e tudo, colocada no alto da geladeira de um bar perto da Escola Técnica Federal, lá em Goiânia.

Éramos muitos telespectadores. Na maioria, atletas participantes dos jogos universitários que aconteciam na cidade.

Era a primeira transmissão para o mundo inteiro, pretendendo atingir simultaneamente mais de 600 milhões de pessoas.

Cenas de grande impacto para todos que aceitassem que aquilo era algo real e não um mero filme de Perdidos no Espaço. O locutor repetia que era uma conquista da humanidade. Americana, para falar a verdade. Parecia que o futuro estava começando.

Depois de quase de 30 horas em ônibus precário de cadeiras retas e joelhos ralando no encosto da frente, havíamos passado ao largo de Brasília, na ocasião repleta de militares, marco ao futuro do Brasil.

Se aqui os tempos eram duros, lá fora explodiam fatos indicadores de mudança. Os Beatles tocavam os últimos acordes e Jimmy Hendrix distorcia o hino americano em festival de rock.

As comemorações de 40 anos da conquista me fizeram lembrar que Bebeta morreu centenária sem acreditar que o homem tivesse pisado na Lua.

Casada com Seu Jorge e mãe de sete filhos e uma filha, mudou-se com a família inteira para a nossa casa em Cachoeiro, quando viemos para Vitória. Até então, ela vinha ficar conosco, sempre que mamãe e papai viajassem. Contava histórias de lobisomem, assombração e de João e Maria, que nos faziam dormir tremendo de medo.

Nunca vi Bebeta sem óculos, que usava desde que a quentura da torração de café, numa fazenda lá pelas bandas de Castelo, “prejudicou as vista”. Os óculos eram quase pretos e somente anos mais tarde ela aceitou usar lentes corretas, um pouco mais claras.

Por promessa, ela nunca mais cortou os cabelos, que limpava diariamente com um pano embebido com óleo perfumado antes de fazer uma trança, que enrolava em um pequeno coque.

Bebeta era bem miúda e tinha personalidade forte e estilo próprio. Suas crenças e opiniões eram muitas e ela as enunciava com a maior simplicidade.

Não aceitava em hipótese alguma o horário de verão, criado pelo general Castelo Branco. Fazia questão que o grande relógio de parede da nossa casa marcasse o “Horário de Deus” e não o “desse Presidente aí”.

Fui ao enterro dela com a sensação de que o mundo singelo e puro de Bebeta estava se acabando. Reencontrei minhas emoções de infância e senti saudade dos tempos ingênuos que ela nos ajudou a viver. Ali, diante dela sem os seus óculos, lembrei-me das imagens do homem na Lua.

Há meses, ao saber que o relógio da nossa velha casa havia sido roubado, lembrei-me imediatamente de Bebeta. Ela jamais perdoaria os autores de tamanha desfeita a todos nós.

Sem qualquer constrangimento e em tributo a ela, roguei praga para o ladrão e para o comprador daquela peça que marcou tantas vidas: que os dois perdessem totalmente a noção do tempo e, de quebra, o valor do dinheiro.

Há quem diga que o homem não pisou na Lua. Pode ser, mas duvido que alguém defenda isso com mais convicção e com a mesma naturalidade com que Bebeta o fazia.

Alvaro Abreu

Vitória, 22.07.2009

Escrita para A GAZETA

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