Gracinha

Desde sábado passado tenho vivido um tempo de muita tristeza pela morte da minha querida mãe, aos noventa e um anos de idade. Se até então prevalecera a alegria da sua convivência, agora é a vez de enfrentar o vazio da sua falta.

Viúva muito cedo, virou matriarca de uma família numerosa e barulhenta. Mamãe era uma pessoa muito forte e independente que, ao mesmo tempo, agregava e acolhia. Sábia, serena e prática, não inventava problemas nem desculpas e sempre oferecia solução. Tinha uma enorme capacidade de compreender as pessoas, de respeitar o jeito de ser de cada uma delas. Nunca a vi julgando atitudes e comportamentos de quem quer que fosse. Quando muito, fazia um comentário maroto sobre o que tinha visto de negativo. Suas mãos, firmes e muito delicadas ao toque, bem expressavam a pessoa que era.

Como mulher criada em cidade do interior, comia chouriço quase toda semana, goiabada com queijo todos os dias e pastel sempre que alguém a levasse à pastelaria. Bebia pouquíssima água, mas gostava de um bom vinho e de cerveja gelada. Elegante e vaidosa, ela não saía de casa sem tomar uma chuveirada, trocar de roupa, pentear os cabelos e passar um batonzinho. Adorava sair para dar uma volta, nem que fosse para ir ao banco. Jamais enjeitou convite para passear ou fazer uma viagem qualquer.

Quando completou oitenta e nove anos, os filhos acharam por bem festejar a data com festa animadíssima e a publicação de um livrinho com algumas das histórias que gostava de contar, incluindo a ida a Marataízes para ver o Zepelin passar, o começo de namoro com papai, as artimanhas de Zig Braga, seu fiel escudeiro, as viagens de trem para as férias no Rio de Janeiro. Tratamos de incluir suas receitas da broa de fubá, dos ovos nevados (que nunca deram para quem quisesse), da torta de nozes das ceias de Natal, dos famosíssimos biscoitos de nata que distribuía com parcimônia entre filhos e netos, e também do arroz de forno coberto de banana da terra frita, que Vinícius de Morais adorou. Incluímos suas fotografias em família e dos quadros que pintou, entre os quais o do sobrado em que nasceu e pra onde dizia querer voltar.

Eleita Cachoeirense Ausente de 2011, ano do centenário do irmão Newton, participou envaidecida de todas as solenidades oficiais e foi a última a sair do baile de gala da cidade. Isso, depois de dançar marchinhas de carnaval liderando um grupo de foliões. Recentemente, toda orgulhosa e com grande curiosidade, percorreu com calma, por duas vezes, a exposição pelos cem anos de Rubem, no Palácio Anchieta. Dona de mente ligeira, ao ouvir alguém dizer: “Ai, ai”, ela replicava imediatamente com um “Ai, ai, pra mim também”, que aprendera com Newton.

Agora, aqui estou eu, sem ter quem replique esse estado de alma próprio de quem acaba de perder a mãe. O que alivia um pouco é saber que ela chegou lúcida ao fim da vida, gozando de boa saúde e feliz, como bem mereceu. É bom que se saiba que ela copidescou boa parte das crônicas que escrevi, sempre opinando com muita precisão a favor da clareza e da simplicidade do texto. Assim, perde, também, o leitor.

Em mensagem carinhosa, uma amiga disse que a partir de agora Dona Gracinha brilhará no firmamento. Da minha parte, a imaginei transformada em uma suave garça branca, daquelas que sobrevoam em bandos o rio Itapemirim nas manhãs e nas tardes de todos os dias. No momento em que a colocávamos ao lado dos seus no cemitério bem atrás do Liceu Muniz Freire, onde estudou, centenas delas subiam o rio a caminho do lugar de dormir.

Vitória, 12 de Junho de 2013

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

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