50 anos é muita coisa, mas parece que foi ontem. Eu voltava da pescaria caminhando pelas ruas da Praia do Canto. Muitas pessoas olhavam para mim. Achei que era por conta do material de mergulho e das lagostas que carregava.
Ninguém teve coragem de me dizer que um homem importante acabara de morrer na Santa Casa. A notícia, anunciada pelas rádios da capital, se espalhara rapidamente. Foi um choque.
Dia desses, Beatriz, minha irmã postou na rede uma fotografia de papai sorridente ao lado de Chico, o maratimba quem sempre pescava, ao lado do pequeno barco de motor de popa. Dependuradas em um remo nos ombros dos dois, doze pescadas graúdas, mostradas como troféu, testemunham de que havia muito peixe em Marataízes naquela época. Tenho lembrança da última pescaria de fundo que fizemos juntos, durante a Semana Santa de 1962. Lembro-me que levantamos com dia ainda escuro e dele trocando de roupa na minha frente, falando que eu já tinha virado um homem nos meus 14 anos. Pegamos uns quatro ou cinco badejos enormes.
Quem o conheceu, diz que papai era uma pessoa entusiasmada com o que fazia, um administrador público de mão cheia, empreendedor e determinado. Formou-se em medicina no Rio de Janeiro e optou pela carreira de sanitarista depois de perder um irmão querido para a tuberculose. Dirigiu por muitos anos o Centro de Saúde de Cachoeiro, que ele construiu quando trabalhava no governo do Estado. Deve existir quem se lembre com saudade do serviço de fornecimento de mamadeiras para recém-nascidos que funcionava como um relógio suíço, sob sua batuta. Eu mesmo presenciei papai passando descompostura em dono de bar de beira de estrada, pela sujeira dos banheiros, avisando que volta da viagem pararia ali para conferir a limpeza.
Ao ser destituído do cargo de direção em Cachoeiro, por razões da política partidária menor, papai aceitou convite para passar dois anos trabalhando para a Organização Mundial da Saúde no exterior. Deve ter sido uma experiência profissional muito difícil, essa de assessorar ministros de países distantes. Ao voltar para o Brasil, ele veio trabalhar na Secretaria de Saúde, aqui em Vitória.
Acho que fomos dos primeiros cachoeirenses a vir morar na capital. Papai conhecia a cidade do tempo em que trabalhou como inspetor federal de ensino, um fiscal exigente e temido, segundo relato de quem dele se recorda entrando nas salas de aula durante as provas.
Papai era filho de uma italiana genuína e risonha e de um farmacêutico nascido em terras mineiras, homem de temperamento forte que foi diretor do Liceu Muniz Feire, Secretário de Educação, deputado combativo e prefeito de Cachoeiro, de muitas realizações. É bem provável que tenham vindo de vovô Fernando as atitudes que fizeram de papai um servidor público na mais exata expressão do termo e que acabaram por servir de referência para os seus filhos.
Sanitarista convicto, Dr. Bolivar foi um Secretário de Educação revolucionário, que criou um programa de construção de escolinhas rurais altamente inovador. Pelo que sei, em menos de dois anos foram erguidas mais de 260 delas, espalhadas pelo interior do Estado. Ainda hoje é possível encontrar na beira das estradas escolinhas em bom estado e funcionado. O segredo do sucesso do programa foi a participação dos interessados diretos na sua existência, fossem eles fazendeiros, prefeitos, padres, vereadores ou pais de meninos sem escola. O terreno, boa
parte do material de construção e a mão de obra ficavam por conta da comunidade interessada em contar com um lugar decente onde as suas crianças pudessem estudar. O governo entrava apenas com algum dinheiro em espécie, mobiliário, instalações e a professora, naturalmente. Dessa forma, o minguado dinheiro público não era desperdiçado com licitações, transportes de materiais, viagens para fiscalização e tudo o mais que encarece desnecessariamente. A escolinha pronta e enfeitada era a melhor prestação de contas, cabal e definitiva, de que o dinheiro fora muito bem gasto.
Acompanhei papai na inauguração de algumas dessas escolas. Afonso, meu irmão mais velho, é quem ia mais com ele nos finais de semana. Era sempre uma festa animada e concorrida. Acho que a emoção coletiva era parecida com a que acontecia na abertura das primeiras feiras de mármore de Cachoeiro. Muita gente se sentindo satisfeita por ter colaborado, muita gente feliz em poder estar ali, diante do futuro.
Serginho Tovar, um amigo de juventude, armou, na maior surdina, uma homenagem para papai lá na escolinha que havia sido construída na fazenda da família, no interior de Colatina. A professora, uma senhora já bem idosa, reuniu os alunos para declarar ao filho de Dr. Bolivar todo o seu agradecimento em poder dar suas aulas em um lugar decente, como ela sempre sonhara. No quadro negro, palavras generosas me fizeram chorar feito menino naquela manhã de sábado, uns três anos depois de sua morte.
Os recortes de jornais, guardados até hoje, registram a trabalheira que ele teve para conseguir a federalização da então Universidade do Espírito Santo e a nomeação dos seus primeiros professores, bem como o intenso contato que ele mantinha com o professor Anísio Teixeira, que aprovava as verbas federais para reforçar o orçamento da Secretaria.
Tenho guardada na lembrança a imagem de papai tomando whisky na varanda lá de casa. Dizia que era para relaxar das pressões que sofria de políticos querendo transferir professoras para um lugar mais perto. Acho que ele morreria de desgosto em ver a coisa pública se deteriorar nas mão de homens gulosos, desavergonhados e subalternos, de um bando de salafrários, como ele bem gostava de dizer.
Afonso fala que papai adorava música e que tão logo entrava em casa ele ligava a eletrola Telefunken para ouvir a orquestra de Glenn Miller, Nat King Cole e Noel Rosa. Beatriz, por sua vez, gosta de contar que ganhou discos de Elvis Presley para que pudesse dançar rock and roll com as amigas da vizinhança. Eu mesmo não cheguei a ver, mas sei que o tal do Dr. Bolivar adorava de se enfiar no meio da orquestra e ficar imitando o trompetista para animar os bailes em Cachoeiro.
Posso afirmar que ele foi um marido apaixonado e um pai orgulhoso da sua prole de cinco. Era carinhoso e brincalhão, mas não deixava de dar umas boas palmadas para apartar uma briga ou corrigir atitude imprópria dos seus queridos moleques. As meninas da casa recebiam atenções especificas: ele controlava os passos de Beatriz já adolescente e dava todo o dengo do mundo para Ana Maria, a caçula que nasceu em La Paz. O amor por sua querida Graça, como ele tratava mamãe, está registrado em centenas de cartas que ela guarda até hoje, muito bem encadernadas. Por certo, ele se encantou com a sua presença de espírito refinada, a sua atitude firme e serena diante da vida. Formaram um belo casal por vinte e poucos anos.
Na nossa casa nunca existiu baralho, nem daqueles mais baratos. Ele detestava jogos de azar. Em compensação, sempre ouvimos conversas acaloradas sobre futebol. É que papai foi diretor do Cachoeiro Futebol Clube, rival inveterado do Estrela do Norte, onde Newton Braga, seu cunhado, atuava com um valente e destemido beque central. Em uma fotografia, papai está com o microfone na mão falando para um grupo de jogadores, dirigentes e homens da imprensa. O curioso é que os olhares estão dirigidos para um menino de calças curtas que está ao seu lado, com um dedo enfiado no nariz. Era Cláudio, o então caçula da família.
As fotografias atestam também que papai era um homem muito elegante, que gostava de usar terno, summer e paletó esporte. Mamãe ri ao contar que ele voltou de uma longa viagens de estudos aos Estados Unidos em 1953 trazendo na bagagem um paletó aberto atrás, meias coloridas, bermudas e camisas espalhafatosas. Dizem que aquela extravagância produziu um verdadeiro reboliço na capital secreta e que ele achava muita graça na reação de espanto das pessoas. Por muitos e muitos anos usei uma camisa de madras, vermelha e de bolsos grandes na parte de baixo, que ele pouco usara. Acho que foi uma maneira de mantê-lo perto de mim enquanto acabava de crescer.
Mais tarde, aprendi a fotografar com a Rolleyflex que ele trouxera do exterior, sempre me lembrando dele debruçado sobre o visor, tentando ajustar o foco. O seu relógio Rolex de ouro, novinho, ainda hoje está guardado na casa de mamãe, sem que nenhum de nós se disponha a usá-lo.
Gosto de dizer, com a maior convicção, que tive muita sorte em ter o pai que tive. Digo isso pelo conforto que sinto em saber que o meu era um homem alegre, íntegro e realizador, exatamente como deveriam ser todos os pais deste mundo.
Alvaro Abreu
Vitória, maio de 2012.
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Quem foi Bolivar de Abreu
Nasceu em Cachoeiro de Itapemirim em 04 de novembro de 1916, filho de
Cezarina Moioli e Fernando de Abreu. Formou-se em medicina na antiga
Universidade do Brasil no Rio de Janeiro em 1939 e especializou-se em Saúde
Pública na Escola Paulista de Medicina, em São Paulo, em 1946. Seu primeiro
emprego foi de Inspetor Federal de Ensino. Depois disso, fez parte da primeira
turma de médicos sanitaristas do Espírito Santo, tendo criado e dirigido O Centro
de Saúde de Cachoeiro, uma unidade reconhecida nacionalmente pelo elevado
padrão de seus serviços de controle sanitário e de atendimento à população mais
carente. Atuou como consultor da Organização Mundial da Saúde na Bolívia e na
Colômbia por dois anos. Foi Secretário da Educação no governo Carlos
Lindemberg de janeiro de 1959 até 05 de maio de 1962, quando faleceu, aos 45
de idade, em função de uma cirurgia de apendicite.