Apelidos

Vitória tinha a fama de ser a capital do apelido. Tanto que um marinheiro, que tinha uma deformação grave nas mãos, não quis desembarcar com medo de ganhar um deles assim que pisasse em solo capixaba. Do tombadilho, olhava os colegas embarcarem na catraia, quando ouviu do catraieiro: – Não vem não, “Mãozinha de Gengibre”?

Na vigente onda de saudosismo, resolvi lembrar os apelidos de frequentadores da Praia do Canto. Em Santa Tereza, recebi ajuda de Léo Siqueira. Meu irmão Paçoca e Faustinho Cinco Pontes puxaram pela memória aqui em casa. Andando no calçadão, cutuquei as lembranças de Artur Bode Velho, Ronaldo Bolão e Roberto Punhal. As reações de cada um confirmam que o ato de lembrar apelidos antigos produz ótimas emoções e reativa a imagem de pessoas conhecidas e de personagens da cena urbana, muitas delas já quase esquecidas. Alguns apelidos fazem chorar de rir. Consegui anotar uns duzentos e setenta, sem incluir os diminutivos. Selecionei os mais recorrentes e os coloquei aqui em ordem alfabética, na intenção de colaborar com quem se disponha a passear pelo bairro.

Confira: Abelha, Adotivo, Alemão, Americano, Aniversário, Anta, Aranha, Araponga, Aribu, Ataré, Ave Maria, Babão, Bacana, Bacurau, Badejo, Baducho, Baiano, Baixinho, Banal, Barão, Barba Roxa, Bardal, Barra Pesada, Barrica, Barriga, Batata, Belas Coxas, Beleléu, Benegute, Bicuda, Bidinga, Biruta, Boca, Boca de Bueiro, Boca de Caçapa, Boca de Gaveta, Boca Negra, Bocão, Bodão, Bode Inglês, Boi Berrô, Boi Louro, Bolinho de Bacalhau, Bombom, Boreco, Brejeiro, Brocoió, Bujão, Buldogue, Cabeça de Manga, Cabeção, Cabeco, Cabeleira, Cacau, Cachorro, Cacique Nariz Torto, Cadeado, Caixote, Calombal, Calunga, Camelão, Canarinho, Canela, Canjonça, Cariê, Carioca, Catita, Caveira, Cebola, Cereba, Chatão, Chico da Brahma, Chico Virilha, Chupetão, Cinco Pontes, Ciroca, Cobra d’água, Coleira, Comandante, Conde Bulau, Coquinho, Coronel Farofa, Coruja, Cuca, Cuco, Dadá, Dadau, Dedé, Diganso, Digão, Dó Maior, Don Dom, Dudu, Escovão, Fachada, Fermento, Ferramenta, Fininho, Foguetão, Força Maior, Fubá, Fura Saco, Fureba, Galego, Galo Cego, Galo Velho, Garibu, Garrafa, Garrafão, Gato, Gaturamo, Gemada, Gereréu, Gigi Coxinha, Golias, Gordinho, Grapuá, Gringo, Grotes, Jacaré, Jarrão, Je Suí, La Saca, Lagosta, Lajota, Louco-louco, Loucura, Lula, Lulu, Macaco, Madruga, Magro, Mamão, Mamário, Mané Diabo, Maozinha, Marta Rocha, Medonho, Meio Fio, Mela o Bico, Mimosa, Mingol, Mirueira, Miserute, Mococa, Morcego, Mu, Muleta, Nenén, Neném Borrado, Neném Bustamante, Neném Prancha, Nenem Russo, Ninica, Olho de Pontaria, Osdiva, Pardal, Paru, Passarinho, Pato Rouco, Patola, Paulete, Paulo Boi, Paulo Branco, Pipa, Pé de Burro, Pé de Mesa, Pé de Pato, Pé de Valsa, Peidão, Pelota, Perereca, Perninha, Peter Banana, Pinduca, Pinico, Pintinho, Pinto Velho, Pintor de Rodapé, Pirão, Pitirica, Polenta, Pombo Roxo, Popó, Pororoca, Preguinho, Puru, Pururuca, Quem tem Papel?, Quiabo Duro, Quina Pau, Rato Branco, Ringo, Risonho, Russo, Salsicha, Sapo, Sapoxô, Sarué, Seu Manduca, Seu Xinga, Several, Siri Cagão, Socó, Taca, Taruíra, Teteco, Tik, Tina, Três Fios, Tuffy dos Patos, Uroga, Vavá Três Pulinhos, Violão Ladrão, Xandoca, Xiru, Zarbele, Zé Besteira, Zé do Coco, Zé Pretinho, Zene e Zobertil.

Cada apelido tem sua história. Vale lembrar a do mineirinho esperto que apostou que passaria três dias em Vitória e voltaria pra casa sem apelido. Ficou o tempo inteiro no quarto da pensão, só abrindo a porta pra receber a comida. Perdeu: virou “Cuco”.

Vitória, 23 de junho de 2015

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA.

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