A conta chegou

Como muitos brasileiros, tenho a sensação de estar num país em marcha lenta, quase parando, mas em plena ebulição política. Otimista eu sou, mas confesso que ando meio perdido, como cego em tiroteio. Não estou conseguindo ver luz no fim do beco: as taxas da inflação descontrolada crescem, os juros disparam e a economia desacelera, progressivamente.

Tenho visto a presidente tentando reagir em meio à pancadaria vinda do congresso nacional e até mesmo de gente de dentro dos palácios e dos partidos da base aliada. Gente que anda meio que fazendo coro e tentando representar uma grande massa de brasileiros descontentes com o governo de que fazem parte. Ideologias, preferências à parte, preocupa ver a mandatária isolada e sem credibilidade nem capacidade para liderar os que a elegeram, os que nela não votaram e os que nem foram às urnas. Como era de se esperar, depois das eleições de novembro, com o restabelecimento da verdade econômica, surgiu grande quantidade de decepcionados e descontentes de todos os matizes e regiões. Avenidas, estradas e praças têm sido ocupadas por manifestações organizadas por lideranças difusas, muitas delas desconhecidas até outro dia e, também por outras, convocadas por entidades e partidos simpáticos ao governo. Na internet, a batalha ideológica entre amigos perdeu força, mas dá pra perceber que foi reativado o abastecimento de informações e denúncias sobre falcatruas antigas.

Enquanto isso, um ministro, no papel de salvador da pátria, tenta conseguir dinheiro para pagar os juros da colossal dívida do governo federal. A sua fixação é conseguir uns R$ 50 bilhões de superávit primário, expressão cínica inventada para denominar a dinheirama que o governo deve guardar para honrar compromissos com os banqueiros e deixá-los mais tranquilos. Para tanto, o emprego, a vaga na escola, a comida no prato, o remédio, a compra da casa, a festa de casamento, o lucro da loja e tudo o mais fica, desgraçadamente, pra depois.

Nesse meio tempo, em complemento às notícias sobre as falcatruas no segmento de petróleo e gás, vieram à tona informações sobre descalabros acontecidos no âmbito da administração de alguns dos maiores fundos de pensão dos empregados de empresas e bancos estatais, fonte de recursos para investimentos no setor produtivo, que movimentam centenas de bilhões de reais. Consta que foram feitas aplicações financeiras em empresas sob suspeição e em empreendimentos que fizeram água, com enorme prejuízo aos cotistas e à combalida poupança nacional.

Para piorar, e justo no momento em que cada cidadão presta contas ao imposto de renda, impressionam as revelações estarrecedoras da mais recente investigação da Polícia Federal. Denominada Operação Zelotes – aqueles que simulam ter zelo – ela pretende desbaratar um esquema de safadezas relacionado com anulação ou redução de dívidas tributárias com a Receita Federal, beneficiando bancos, montadoras, empreiteiras e grandes grupos empresariais. Revolta todo e qualquer pagador de impostos saber que dívidas que somam bilhões de reais foram perdoadas, mediante meros pagamentos de propina a integrantes do CARF – Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, do Ministério da Fazenda, criado em 2008. E já tem gente dizendo que essa roubalheira sempre aconteceu.

Alheio a tudo isso, um casal de sabiá da praia fez ninho na buganvília perto da varanda e, em breve, os filhotes estarão comendo o mamão maduro em cima da mesa, enquanto leio as notícias políticas e as tragédias do cotidiano no jornal.

Vitória, 01 de abril de 2015

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

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