Kit Paraíba
Aceitei de pronto o convite para a festa de cinquenta anos do filho mais velho de um casal de grandes amigos, que conhecemos quando moramos em João Pessoa durante quatro bons anos, no final da década de 70. Fazia muito tempo que procurava um motivo qualquer para voltar lá. A última vez foi há uns dez anos e só de passagem.
Ficamos hospedados em um sítio no caminho de Tambaba, a praia frequentada por pelados convictos, o mesmo que passamos muitos fins de semana na base de comida de fogão de lenha, partidas acaloradas de baralho, conversa besta regada a cachaça de cabeça, soneca em rede na varanda, muita água de coco e tudo o mais que o diabo recomenda. A casa foi ampliada e agora a mesa de jantar tem 16 lugares, sempre ocupados por gente animada, de bem com a vida. As pessoas estão mais velhas mas, em compensação, surgiram netos.
João Pessoa está bonita e bem cuidada. O centro e os bairros próximos continuam, tirando uns dois ou três prédios novos, exatamente iguais aos que conheci. Foi muito emocionante rever, intactas, a casinha na beira da praia que moramos no início e a casa que construímos depois. Elas ainda resistem à especulação imobiliária na região da orla. A cidade cresceu em direção às praias, inteligentemente. Soube que o prefeito anterior criou mais de trinta praças, todas com espaços para shows e esportes. O trânsito urbano já começa a complicar, mas fiquei com inveja das estradas de pista dupla que ligam João Pessoa a Recife, a Natal e a Campina Grande, embora os fluxos de veículos sejam bem menos dos que estão nos matando por aqui. Na beira da pista, três enormes cataventos brancos, com mais de setenta metros de altura, expressam modernidade e bom senso.
O mercado central nem parece o mesmo. Uma grande reforma vai deixando tudo mais limpo e organizado. Perde-se um pouco da originalidade mas ganha-se em conforto. As bancas estão repletas e coloridas, sobretudo pelas pilhas de uvas, melões, mangas e melancias produzidas no vale do rio São Franscisco. Antigamente os feirantes me tratavam por professor, em função da minha barba preta e dos cabelos longos. Agora, passados mais de trinta anos, foi a vez da minha cara de turista deslumbrado instigar o pessoal a caprichar nas ofertas. A visita ao mercado tinha algo de saudosismo, mas, na verdade, eu estava ali a serviço, querendo comprar os ingredientes básicos do chamado “Kit Paraíba”, com a intenção de prolongar o gostinho do passeio.
Não foi pouca coisa o que trouxemos nas malas e em uma boa caixa de isopor: quatro quilos de carne sol de alcatra e contra filé; feijão verde debulhado; farinha quebradinha e com goma, para engrossar o pirão; muita castanha de caju sem sal, sem nada; três tipos de queijo do sertão: de manteiga, de coalho – um tradicional e um pré-cozido; manteiga de garrafa; duas rapaduras, sendo uma bem escura; doce de caju em calda e em palito, cocada na quenga; biscoitinhos de goma; sequilhos; bolacha Sorda; um bom pedaço de quebra-queixo de coco verde e duas garrafas de cachaça Rainha, a minha preferida.
Além disso, veio também: um vidro de pimenta curtida da coleção do meu amigo Iveraldo Lucena; arroz negro e o da terra, vermelhinho, próprio para fazer o famoso arroz de leite, recheado com queijo; e, porque sou um apreciador fanático, tratei de trazer também uma buchada de bode completa.
A viagem foi tão boa que já aceitei o convite para passar os festejos de São João na granja e aproveitar para conhecer o Lajedo de Pai Mateus, perto de Cabaceiras, na região do Cariri paraibano.
Vitória, 29 de Abril de 2012
Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA
