Fruta-pão

Fruta-pão

Ganhei um fruta-pão de presente da minha irmã Beatriz. Ela veio trazê-lo pessoalmente. Estava toda orgulhosa e cheia de si, dizendo que tinha acabado de tirá-lo do pé que ela plantou no quintal da sua casa e que está dando a sua primeira carga de frutos. Trata-se de uma árvore de origem bem conhecida, descendente direta que é do pé de fruta-pão centenário do sobrado onde nasci, na Rua 25 de Março, lá em Cachoeiro de Itapemirim, que pode ser considerado como uma espécie de árvore da família.

Quando estive lá, há uns quatro anos, tirei duas mudas já taludas com a ajuda de um facão enferrujado e as trouxe para Vitória enroladas em papel de jornal molhado. Não foi difícil, os brotos nascem nas raízes superficiais, na forma de um pequeno talo, com uma ou duas folhas já bem grandinhas. Aliás, as folhas do fruta-pão, firmes e com suas bordas recortadas, são das mais bonitas que eu conheço. São enormes, podendo chegar a uns sessenta centímetros de comprimento. Quando nascem, são verde claro, puxando para o amarelo. Depois de abertas, ganham cor bem mais escura, um verde próprio, fácil de identificar.

É árvore inconfundível e bonita de se ver. Os galhos não são muitos, mas são bem longos. A quantidade de folhas é relativamente pequena, o que permite vê-la também por dentro. Posso reconhecer um pé de fruta-pão à distância. Sempre que viajo vou procurando por eles e pelas touceiras de bambu. São árvores solitárias e quase sempre estão no quintal das casas, ao alcance dos seus moradores. São de grande utilidade como fonte de alimento. Basta um único fruta-pão para alimentar uma família de muitas bocas. Vi na internet que foi trazida do Sudeste Asiático no século dezoito.

Os seus frutos ficam dependurados na ponta dos galhos, como as bolas das árvores de Natal. São arredondados, grandes e pesados, têm casca caracachenta de um verde desbotado e um cabo grosso que solta um leite branco. Quando ainda está de vez, sua polpa é bem clarinha, sem fibra e de consistência parecida com a da batata doce. Tem gosto suave, aceitando qualquer complemento salgado, sobretudo manteiga, queijo derretido, linguiça e carne ensopada. Mas também pode ajudar a engrossar sopas, participar de cozidos e ser servida frita ou assada. Nestes tempos de fartura, já tem parente meu querendo fazer um bobó, pra experimentar.

A bem da verdade, devo dizer que jamais comprei um fruta-pão sequer e que sempre que os vejo nas bancas de supermercados e hortifrutis, eles me parecem abatidos e meio que encabulados de estarem ali. Já nas feiras livres, eles ficam mais à vontade e viçosos, ao lado das couves e dos brócolis. O aumento do interesse pela culinária poderá fazer com que algum chef amador descubra os segredos do fruta-pão, que pouco frequenta as cozinhas brasileiras.

Posso apostar que muitos sequer experimentaram o seu sabor, mesmo aqueles que são netos e bisnetos de gente do interior, que comia dele diariamente no café da manhã e na ceia, antes de dormir. Fruta-pão é coisa da roça, do tempo em que só ia pra mesa o que havia nas redondezas.

Ao comer o purê que fizemos aqui em casa no sábado pude ouvir um som de infância: o

barulho grave do fruta-pão batendo pesado no telhado de zinco da garagem que construíram bem debaixo dos galhos carregados. Ri novamente ao lembrar do dia em que um deles caiu na cabeça de uma prima que brincava no quintal. A sorte é que o fruta-pão só despenca lá das grimpas quando bem maduro e totalmente esborrachante. E grudento. E ela teve que voltar pra casa de banho tomado e com roupas de Beatriz.

Vitória, 21 de Junho de 2012

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

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