Eleições

Eleições

Estive em São Paulo na semana passada e, como sempre faço, tratei de sondar a opinião dos motoristas de taxi sobre a campanha eleitoral que está começando. A grande maioria deles, e não foram poucos, declarou que iria votar em branco, por pura descrença nos políticos. Lá tem candidato profissional com rejeição enorme, pretendente enfiado goela abaixo de partido, profissional da imprensa que virou político, candidato bom sem qualquer chance e muitos mais.

Como raramente ando de taxi em Vitória, não tenho oportunidade de fazer pesquisa de boca de motorista. Mas estou achando que aqui também tem muita gente indignada com as coisas da política. A eleição ainda está morna por aqui. Até agora, ninguém pediu o meu voto. Nem na feira de Jardim da Penha. A impressão que tenho é que os candidatos estão constrangidos em fazer campanha cara a cara com os eleitores. É bem provável que alguns deles até estejam com vergonha de pedir votos, por receio de serem confundidos com candidatos a membros de esquemas de assalto ao dinheiro público.

Já, já, começa a propaganda eleitoral na TV. Por enquanto, os candidatos só são vistos em adesivos coloridos pregados nos vidros traseiros dos automóveis. A sorte deles é que o aumento da quantidade de carros, a lentidão do trânsito e os engarrafamentos facilitam a visualização da foto e a leitura dos slogans. Os muros, as fachadas e os postes estão livres de cartazes e de pichações dos candidatos. Antigamente, depois das eleições era quase que obrigatório fazer uma grande faxina, inclusive nas rochas situadas em lugar estratégico. Aos poucos fomos ficando civilizados por força da repressão e das multas, como aconteceu com as sociedades mais bem comportadas do planeta.

No começo da semana estive na Biblioteca Pública, na Praia do Suá, para o lançamento de dois livros sobre os anos setenta em Brasília. Anos de chumbo seguidos da chamada abertura lenta, gradual e segura. Antônio Gurgel, o autor, viveu a juventude na capital federal, tendo participado de corpo e alma de movimentos estudantis e da criação de jornais alternativos de grande influência nas atitudes de estudantes, jornalistas e intelectuais da Capital. Foi muito bom poder ouvir histórias daquele tempo, conversar sobre pessoas com quem convivi e relembrar lugares que frequentei. Morei em Brasília por duas vezes: no começo da década de setenta e durante os primeiros sete anos dos oitenta.

Quando lá cheguei em 1973, a cidade estava em plena construção e o pó de barro vermelho imperava. Trabalhava-se com muito empenho no governo, mas sempre de olho nas atitudes e nas opiniões dos colegas. Na cidade, o sentimento de solidariedade entre as pessoas, quase todas muito novas, superava a falta da família e a desconfiança. Brasília era de oposição.

Tenho guardada a emoção de acompanhar pelo rádio do carro, ao lado de um grupo de amigos, a apuração das eleições de 1974. O antigo MDB fez a festa. Elegeu uma grande bancada de deputados e senadores, fazendo tremer os generais de plantão, que trataram de inventar os senadores biônicos para garantir a maioria silenciosa em plenário, sem mensalão, nem nada.

A reação dos jornalistas veio na forma de um bloco de carnaval desfilando na contramão pela Avenida W3, diante da Torre da Televisão, em pleno sol quente. Cravados no seu DNA a irreverência total, o deboche convicto e o compromisso com a esculhambação. Acho que foi no Pacotão que, fantasiado de Palhaço do Planalto, peguei o gosto de tocar tamborim durante o carnaval.   

Vitória. 19.08.2012

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

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