Agosto
Por incrível que possa parecer, o mes de agosto terminou sem tragédias, desastres ou acontecimentos tristonhos. Posso dizer isso com boa convicção, sobretudo no que me diz respeito mais diretamente. Para falar a verdade, este foi o agosto mais intenso e emocionante dos que vivi. E já vivi muitos deles, como se sabe.
O mes começou com ideias animadoras, formulações criativas e transcorreu com muitas providências. Tudo em sequencia ao que já vinha acontecendo desde o fim de junho. Felizmente a trabalheira terminou em festa animada, ao som de vozes afinadas cantando melodias conhecidas, em noite de lua cheia e, ainda por cima, azul. Um luxo, como gostavam de escrever os cronistas sociais de antigamente.
Setembro, por sua vez, começou com uma manhã ensolarada de ventos moderados vindos do quadrante sul. Nem imagino o que terá acontecido por aí mas, para mim, o primeiro dia do mês chegou em meio a uma forte ressaca emocional e com o olho esquerdo ardendo muito, por alguma razão misteriosa. Mas nada disso foi suficiente para quebrar a animação de um almoço de pouca comida, muitas palavras ditas ao mesmo tempo, trocas de presentes e de gentilezas, acertos de contas pendentes, instruções de viagem e promessas de futuros encontros, em terras estrangeiras.
Abraços e beijos entre quatro brasileiros e três alemães no meio da rua marcaram o encerramento de mais um capítulo de uma longa e bela história que começou há mais de dez anos, bem longe daqui. A precariedade do meu inglês e a nulidade do meu alemão já tinham dificultado bastante as comunicações durante os dias de convivência em São Paulo e aqui, em Vitória. Com a ajuda de parentes e amigos, havia sido possível conversar sobre fatos curiosos, acontecimentos marcantes, providências e emoções relacionadas com a edição e os lançamentos de um livro e com a realização de uma exposição de colheres e fotografias. Ainda que de forma precária, havia sido possível comentar o gosto pelas coisas boas da vida, a alegria de conseguir materializar uma ideia antiga, as muitas coincidências ocorridas, a convergência de propósitos, a ansiedade das esperas, o nervosismo que surge das falhas, as dificuldades de toda ordem e muito mais.
Mas foi sob a forte emoção de uma despedida movida a gestos de carinho e palavras de agradecimento que, mais uma vez, pude comprovar a força da generosidade entre pessoas, mesmo que mal se conheçam, e o formidável poder que emana da determinação do homem em fazer o que gosta. É bom que se saiba que a dor do olho passou tão logo o carro com os amigos alemães dobrou a esquina, a caminho da estrada para as montanhas. Ali, de pé, no meio daquela rua onde morei e joguei bola, me dei conta de que sou um felizardo e que os astros andaram conspirando a meu favor.
Terminada a maratona de eventos, resta agora recolocar a vida no seu curso normal, retomando a rotina do trabalho e dos afazeres domésticos no dia a dia em família. Livre dos riscos e da pressão de compromissos inadiáveis, agora também vai ser possível dedicar mais atenção ao julgamento que está acontecendo no STF, com imagens transmitidas ao vivo, em cadeia nacional.
Na semana passada consegui acompanhar pela TV o voto de três dos seus ministros e a condenação, por grande maioria, do primeiro grupo de acusados por prática de corrupção, peculato e lavagem de dinheiro. O pouco que vi me faz acreditar que serão condenados todos os membros da quadrilha e, contrariando expectativas de incrédulos e desiludidos, também o seu chefe supremo.
Vitória, 02.09.2012
Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA
