Lista de Material
Outro dia me mostraram uma extensa lista do material que deveria ser comprado pelos pais dos alunos de uma creche para o ano letivo de 2011. O material deveria ser adquirido e entregue de uma única vez na escola, quando seria conferido item a item. Como opção, os pais poderiam fazer o pagamento em cinco parcelas iguais,somadas às mensalidades.
Imagino que a quase totalidade dos pais preferiu pagar a conta, apesar de meio salgada. É mais um preço que se paga pela correria diária, pela falta de tempo, pela preguiça de ir de loja em loja, pela simples falta de estacionamento diante das papelarias. Pagar é mais rápido e economiza chateação.
Taxa de material escolar é mais um daqueles itens que foram sendo incorporados nas despesas da sobrevivência de qualquer casal com filhos pequenos. Criar filhos está ficando cada vez mais caro. Criamos os nossos numa época em que as coisas eram mais simples e mais baratas.
Dia desses ouvi pelo rádio do carro uma entrevista com alguém que se dizia especialista em economia doméstica, autor de livros e tudo o mais. Acho que fazia parte da campanha de lançamento de mais um best seller, desses de auto ajuda que existem para todos os gostos.
A jornalista perguntava com alguma malícia e o especialista respondia com convicção que criar filho era um investimento de retorno garantido, sobretudo se a moeda utilizada como parâmetro fosse o reconhecimento e o carinho recebido do filho adulto.
Quando comecei a prestar atenção na conversa, ele anunciava os resultados de uma pesquisa que andaram fazendo por aí, que atesta que o brasileiro gasta em torno de 240 mil reais com um filho até que ele se forme em uma faculdade. Imaginei que a tal lista de materiais poderia ser tomada como prova inconteste da validade dos resultados da tal pesquisa.
Fiquei pensando que a mensalidade cobre apenas o direito de frequentar as instalações da escola e de receber as atenções de tias sorridentes. Pelo que sei, nas escolinhas a oferta de facilidades e atividades complementares é cada vez mais diversificada, incluindo-se aí inglês, capoeira, ginástica olímpica e natação. Tudo acessível a preços compensadores, no mais tradicional estilo do usou, pagou. Quase que um self service educacional, onde os estímulos ao consumo são sutis e de difícil percepção, sobretudo por pais dispostos a oferecer o que há de melhor para os filhos, ainda que isso lhes custe os olhos da cara.
O marketing dos chamados negócios educacionais reforça essa atitude legítima dos pais e explora, com força, o sentimento de culpa materna por não poder ficar em casa com os filhos durante o dia e o danado do olho grande no filho do vizinho. Como faz com os vinhos, a mensagem planta a idéia que a relação custo benefício da educação é muito favorável. Compensa gastar.
Voltando pra tal lista, confesso que me assustei com o que vi. Ela tinha mais de 100 itens, incluindo resma de papel, rolo de barbante, papéis especiais para aquarela, muitos pincéis, caixa de lápis de doze unidades e até caneta para retroprojetor. Fiquei pensando no esforço que teria uma criança de menos de dois anos para conseguir usar e gastar aquilo. Nestes tempos de reciclagem, as crianças estão frequentando escolas ou centros de formação de consumistas desvairados?
Vitória, 20 de Abril de 2011
Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA
