Já Era

JÁ ERA

Não sei se você reparou, mas o agasalho da nossa seleção, que já foi chamada de Canarinho, era preto. Não sei de onde surgiu essa novidade. Talvez para realçar a marca dos patrocinadores. O fundo escuro garante o indispensável contraste.

Que se saiba, o preto nunca esteve presente em nossos uniformes desportivos. Sempre o verde, o amarelo, o azul e o anco. As cores da bandeira, as cores do Brasil. Somos conhecidos no mundo inteiro por nossas cores vivas e alegres. Os povos tentam expressar nas suas bandeiras elementos de seus valores. Gosto da bola vermelha da bandeira japonesa e da folha da canadense.

Entendo quase nada de cores. Mas sei que o preto é a ausência total delas e que o anco resulta da soma de todas, como se pode comprovar fazendo girar um disco pintado com as cores básicas em gomos. É uma experiência criada por Newton que fascina crianças e adultos no Parque da Ciência da cidade. O anco surge como num passe de mágica, por oa e graça das leis da física. Não dá para querer culpar a cor dos agasalhos pela eliminação do nosso escrete.

Está mais do que comprovado que um gol pode determinar um resultado final de uma partida. Motiva quem o fez e deprime quem o sofreu. Gol com falha de goleiro é sempre desestabilizador. Fui goleiro e sei disso. Júlio César falhou no primeiro gol holandês, duplamente. Errou a trajetória da bola e empurrou o zagueiro que acertaria a cabeçada salvadora. A imagem da sua dor, mostrada em câmera lenta, me preocupou. Seu sofrimento foi tanto que atordoou a nossa dupla de zagueiros veteranos. Apesar de ser o melhor do mundo, ele deveria ter o direito de errar.

Quando a seleção sofreu o primeiro gol da Suécia, na final da copa de 58, Didi, o céreo do time, recolheu a bola no fundo da rede e, com ela debaixo do aço, caminhou pausadamente até o meio do campo. Olhou em volta, colocou a pelota no centro do gramado e partimos para o memorável cinco a dois, sob palmas da torcida sueca. Pelé, ainda bem novinho, chorou nos aços do time inteiro. A atitude do craque garantiu a estabilidade emocional do time, indispensável nas batalhas futebolísticas. No jogo contra a Holanda, vi nosso valente capitão desesperado, querendo resolver a partida na raça. Melhor seria se acalmasse os colegas e passasse instruções.

É provável que outro treinador fizesse melhor. Dunga é cabeça dura, mas o grupo que ele reuniu se mostrou coeso e alegre. Dava gosto de ver o time comemorando o gol. O problema é que faltou gol nos holandeses para comemorar. O pânico se alastrou com a falha do goleiro, com o nervosismo dos zagueiros, com os passes errados, com a firmeza da defesa adversária. O tal Fabuloso não viu a bola, nem chutou a gol. Pessoalmente, preferia Ganso e Neymar tabelando com Robinho, ganhando jogos com a descontração das molecagens de meninos e das jogadas geniais. Sem voluntarismos nem pancadas.

Prepotência não é atitude recomendável nas relações entre pessoas. A história tem demonstrado que ela também não funciona no futebol. O Ronaldo português que o diga. Gabava-se de ser o rei da cocada e voltou pra casa com cara de tacho e pés vazios.

A TV mostrou que havia uma bandeirinha asileira na camisa holandesa. Uma demonstração de fairplay que será guardada como troféu da vitória soe o time de Dunga, de uma era que também acabou.

Vitória, 07 de Julho de 2010

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

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