Declaração

Declaração

Como acontece todo ano, o mês de abril terminou numa declaração de imposto de renda.
Devo confessar que o preenchimento dos formulários consumiu pouco tempo e que o processo transcorreu de forma razoavelmente tranqüila.

Posso informar também que a entrega da declaração foi realizada com sucesso via internet e que os cálculos dos ajustes nos impostos a pagar favoreceram o leão, como era de se esperar.
As despesas dedutíveis com saúde, educação e afins, diminuíram quase que a zero depois que a nossa casa foi ficando vazia de filhos e começando a se encher de netos. Não foi preciso preencher a relação de dependentes nem a linha do cálculo do valor total do respectivo desconto padrão. Muito menos abater a correspondente parcela da temida renda sujeita a tributação.

Notei que os formulários foram aprimorados para facilitar o trabalho do contribuinte e reduzir o nível de incerteza na hora de fazer os lançamentos dos valores recebidos a título de rendimentos tributáveis e não tributáveis. O sistema faz boa parte das contas e transporta os resultados automaticamente para a planilha de cálculo do imposto devido. A atualização da relação de bens e das dívidas e ônus reais ficou muito fácil de fazer com a criação de uma tabela onde aparece o que foi lançado até o período anterior. Ainda mais porque nessa altura da vida, a relação de itens que compõem o patrimônio familiar se mantém praticamente a mesma, exceto uma troca de carro, a atualização dos valores da conta corrente, da poupança e de aplicações financeiras de curto e médio prazo.

Este ano me voltou à lembrança o sofrimento de fazer uma declaração completa no formulário do imposto de renda antigamente. Era uma verdadeira maratona. Centenas de papéis de recibos e canhotos de cheques espalhados sobre a mesa da sala, durante muitos dias. As emoções que tenho guardadas são de desespero e de insegurança. Os lançamentos eram feitos mês a mês e os valores tinham que ser corrigidos, um a um, em busca de números livres da inflação, normalmente na casa de dois dígitos. Como não existia computador, as contas eram feitas na ponta do lápis e, depois de tudo pronto e conferido, era preciso passar a limpo para entregar no banco. Enfrentando fila, naturalmente.

Recentemente, ao esvaziar gavetas em busca de espaço para guardar coisas mais novas, encontrei a primeira declaração de imposto de renda que fiz depois que comecei a receber como professor universitário. Um emprego e tanto, diga-se de passagem, pois consegui comprar à vista um Corcel 73 novinho em folha com quatro salários. Como estava recém-casado com uma universitária, tinha uma única dependente para deduzir despesas.

Pois saibam que, apesar disso, o total de imposto de renda que paguei não chegou a cinco por cento de tudo o que havia recebido durante aquele ano inteiro. Se fosse agora, pagaria quatro a cinco vezes mais. Sem esquecer do tanto que se paga de ICMS, ISS, IPVA, IPTU, taxa de marinha e muitos mais, que também aumentaram absurdamente. Dói no bolso e na alma de qualquer cidadão de bem que vive de salário e que, ainda por cima, se vê forçado a arcar com plano de saúde, mensalidade escolar, lista de material, e tudo o mais que deveria ser obrigatoriamente suprido pelos governos que arrecadam tantas taxas e impostos.

Viitória, 02 de maio de 2011
Alvaro Abreu
Escrita para A Gazeta

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