Bom de ver

Bom de ver

Andei esses dias por Minas Gerais. Fui dar palestra para alunos de engenharia de produção num encontro lá em São João Del Rey e aproveitei para passear um pouco pelas Alterosas, coisa que não fazia há um bom tempo. Vestido de turista, aproveitei para visitar a igreja de São Francisco, uma maravilha da arquitetura barroca, com altares enormes em madeira entalhada e duas imagens de olhos esbugalhados, feitas por Aleijadinho. Deixei as demais igrejas da cidade para uma próxima vez. Sem dó, pra falar a verdade.
É que Inhotim estava na pauta turística há anos, tendo mesmo influenciado na aceitação do convite para ir falar coisa séria tão longe de casa. Está ficando cada vez mais frequente encontrar quem fale com entusiasmo daquele lugar e quem declare vontade de conhecer o paraíso que um mineiro rico criou no meio do mundo. Muitos dizem querer voltar para ver o que não viram, por falta de tempo.
Trata-se de um jardim botânico belíssimo com construções em arquitetura moderna feitas para abrigar obras de arte contemporânea de grande expressão. Lá, pode-se ouvir o som da terra saído de um buraco de 202 metros de profundidade, ver uma máquina enorme de arrancar árvores presa em uma cúpula geodésica, dar de cara com as placas de aço de Amilcar de Castro na grama e ficar pensando na vida diante de enormes estacas metálicas cravadas no cimento, bem no meio do nada.
Os jardins foram idealizados por Burle Marx, que passou por lá logo no começo e deixou recomendações, inclusive a de preservar uma gigantesca árvore da qual não guardei o nome. Em Inhotim até velhos eucaliptos fazem pose de artista. Ganhei, porque pedi com insistência, um pedaço de bambu preto que só tinha visto em Alhambra, na Espanha.
Em Belo Horizonte, fui visitar o Museu de Artes e Ofícios instalado na antiga estação central da cidade. Ali, uma bela exposição mostra o Brasil de antigamente. Uma aula de história contada com utensílios, ferramentas e artefatos usados na produção de cachaças, queijos, sapatos, tecidos, jóias, panelas, móveis e muito mais. Isso sem falar em balança de escravos, cadeira de dentista, moinhos de pedra, foles de couro, rodas d’água, fogão de catre. Tudo gasto pelo uso intenso e impregnado de tempo. Os processos estão explicados com palavras inspiradas, boas de ler. Trabalho cuidadoso feito por iniciativa de família rica, que recolheu e guardou aquelas peças ao longo de décadas. Diante daquilo tudo, eu fiquei pensando no bem que aquele lugar faz às pessoas, sobretudo às crianças, que têm pouca noção de como era a vida por aqui, quando tudo era feito à mão, com muito esforço e engenhosidade.
Na véspera da viagem, tinha ido ver uma exposição de quadros e esculturas no MAES, instalado no prédio da antiga Imprensa Oficial, bem no centro de Vitória. Lá estão peças criteriosamente seleccionadas na coleção de um empresário amigo meu, que teve a ousadia de criar e manter por quase três anos, no final da década de 80, a galeria Usina, de arte contemporânea, em uma bela residência na Praia do Canto. Foi muito bom poder ver de perto mais de 100 obras de renomados artistas brasileiros, incluindo Dionísio Del Santo, César Cola, Regina Chulam e Hilal.
O que vivi durante esta semana me fez reconhecer mais uma vez a força da generosidade, atitude própria dos homens senhores de si.

Vitória, 01 de Junho de 2011

Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA

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