IR E VIR
O fato de o aeroporto de Vitória ter ficado fechado por vários dias fez muita gente que depende de avião usar táxi, van e ônibus para chegar ou sair cidade. Alguns se lembraram do passado.
Mamãe contou histórias sobre as viagens de trem entre Cachoeiro e Rio de Janeiro, a única opção de transporte entre as duas cidades até o começo dos anos 50. Embarcava-se às 4 da tarde e chegava-se ao destino por volta das 8 da manhã.
O tempo de viagem era igual para ricos e pobres. Para estudantes, políticos ou fazendeiros, para quem viajasse de férias ou a serviço. Ela conta que vovó Neném fez uma viagem dessas para tirar uma espinha de peixe da garganta. Nem imagino o tamanho do incômodo, agravado pelos solavancos do vagão.
É bem verdade que existia a possibilidade de dormir durante um bom trecho da viagem, a partir de Campos. Isto, para quem conseguisse vaga no carro leito e pudesse pagar por um beliche com direito a roupa de cama em puro linho inglês.
A duração da viagem permitia pensar no encontro político, imaginar passeios, escrever discursos, estudar para a prova. Nas voltas pra casa, no começo das férias, os pensamentos ficavam por conta da retomada do namoro, do reencontro com amigos, do baile nos Caçadores.
A paisagem que corria pela janela, vista com olhar desatento, atestava a transição entre dois mundos diferentes. Partia-se para o Rio sabendo que haveria viagem de retorno e que a vida seria retomada no ponto exato em que fora suspensa na estação da Leopoldina. Pisava-se a plataforma da cidade maravilhosa com a esperança de encontrar boas oportunidades de trabalho, estudo e muita diversão.
De minha parte, lembrei-me do nosso vizinho de muro que, com ares de desbravador, levou a família até a Argentina numa valente kombi de luxo, ano 1967. Foram e voltaram montando barraca.
Talvez inspirado nessa aventura foi que, na condição de pai de cinco filhos e casado com mulher animada e corajosa, resolvi comprar um ônibus para podermos viajar juntos, para qualquer destino, sem depender de hotel. Transformado em trailler mambembe, caseiro, com poltronas para 16 passageiros, camas para 12, toilet a bordo, duas mesas, cozinha completa e poleiro para a arara, o busante – como era chamado pelos meninos – rodou quase 30 mil quilômetros no asfalto e nas estradinhas de barro do planalto central, das terras mineiras, do sertão baiano, das praias do nordeste e do leste. Sem a menor pressa.
Era muito bom poder acordar com o barulho do mar, com o sino da igrejinha, com o mugido das vacas de um fazendeiro conhecido. O toldo armado na lateral daquele ônibus branco garantia a sensação de se estar na varanda, diante da paisagem escolhida a cada dia. Nos postos de gasolina, era comum ouvir alguém perguntar se era “ônibus de conjunto”. Muitas e muitas vezes ele seguiu levando parentes e amigos em viagens animadíssimas.
A pressa e a prontidão são marcas dos dias atuais. A mídia apregoa que a comunicação torna o mundo sem fronteiras e coisa e tal. Até aí, tudo bem. O problema é o trânsito nas cidades, que avança na contramão desse processo radical de encurtar distâncias e otimizar o uso do tempo. Para quem não tem celular, como eu, só lhe resta ouvir música ou a Voz do Brasil.
Alvaro Abreu
Buenos Aires, 12 de novembro de 2009.
Escrita para A Gazeta
