Frescobol no Carnaval
Ao passar de bicicleta, num fim de tarde de dezembro, dei de cara com as duas, esquecidas ali. Estavam de lado, encostadas no meio-fio. Junto com elas, uma bolinha vermelha de borracha.
O formato, parecido com o de uma gota, era inovador. Elas eram diferentes das que eu conhecia, feitas de compensado, imitando raquetes de tênis. Eram inteiriças, recortadas em uma única peça de madeira maciça. A espessura ia diminuindo na direção da ponta. O desenho do cabo, sextavado e grosso, oferecia excelente pega.
Dava para ver que as duas tinham pesos ligeiramente diferentes e isso era muito bom. A mais leve poderia ser usada pelo jogador que jogasse defendendo e a mais pesada, pelo que gostasse de atacar. Por tudo isso, aquelas raquetes pareciam extremamente adequadas à prática do frescobol, típico esporte de demonstração, ou seja, esporte para os rapazes se mostrarem para as moças na praia.
Resolvemos pintar as raquetes com a tinta usada na reforma da lambreta de um amigo. Verde e cinza, em listras. Além de proteger a madeira, garantiria perfeita identificação como sendo as raquetes da Praia do Barracão.
Ficou comprovado dias depois que elas tinham sido trazidos por Ninica, um exímio jogador de frescobol que se divertia rebatendo com categoria todo e qualquer bola que fosse arremessada com máxima potência pelo adversário. De quebra, devolvia a bolinha em perfeitas condições para receber outra raquetada violenta.
Por anos a fio, o último a ir embora as levava pra casa e, no dia seguinte, as trazia de volta. Elas não eram de ninguém. Eram da praia, como tal qual a morena Teresa, cantada na época por Lúcio Alves e Dick Farney.
Tempos depois, fui passar o carnaval em Guarapari, com elas na bagagem.
– A raquete é sua? Podemos jogar um pouquinho?
Foi por mera condescendência que resolvi aceitar o convite daquela moça risonha, baixinha e de perna grossa. Em plena ressaca do baile de sábado do Siribeira, aquela não era hora para jogar frescobol e muito menos com uma mulher.
As primeiras raquetadas acabaram com o meu pouco caso. A gentileza deu lugar ao espanto que, rapidamente, cedeu vez ao pânico.
Eu estava diante de uma mulher com jeitinho de santa, mas com disposição e força suficientes para intimidar um homem com uma simples raquete de madeira e uma bolinha de borracha. Para complicar, a fúria com que jogava chamava a atenção de quem passava por perto.
Morrendo de rir, amigos e curiosos formaram uma torcida para incentivar os ataques da gordinha furiosa ao rapaz desconcertado.
– Dá-lhe carioca! Acaba com a pose desse cara!
– Aí, prega uma medalha no peito dele!
Eu sabia que se continuasse jogando seria irremediavelmente atingido por aquela bolinha maldita, fato incompatível com a minha fama de exímio jogador de frescobol. Melhor seria inventar um pé torcido ou lhe oferecer um copo de cerveja e acabar com aquele jogo perigoso.
Além de audaz, resoluta e exímia jogadora, ela era uma criatura discreta e amável. Tanto que aceitou meu pedido de trégua com naturalidade.
Na sombra, ela preferiu tomar água de coco, enquanto ouvia com atenção a história daquelas magníficas raquetes. Mostrou-se indulgente com minhas desculpas esfarrapadas e fez de conta que acreditou quando lhe disse que jogar na defesa não era o meu forte.
Dava para ver que ela se deliciava com a situação. A minha fragilidade a fazia feliz e, mais do que isso, poderosa. Tanto que acabou passando o resto do carnaval olhando pra mim com a mesma carinha de anjo com que me convidara para jogar.
Vitória, 03.02.2010
Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA
