Faxina
Há tempos os cupins haviam comido boa parte do armário de um dos quartos da nossa casa. Longe dos olhos do dia a dia, o assunto foi ficando pra depois, até que a hora da desocupação chegou de supetão. O marceneiro viria à tarde e era preciso esvaziar as prateleiras e gavetas que haviam sobrado.
Naquele armário corroído em suas estruturas, estava boa parte do que foi sendo acumulado pelos filhos até saírem de casa, levando apenas o que lhes pareceu indispensável para viver em outro lugar. Como o que vem vindo pela frente é incerto, melhor é partir aliviado do que precisará ser guardado no novo destino. Todo mundo faz isso. É coisa do bicho homem, isso de não dispensar o que foi juntado durante anos. Também foi assim comigo, quando fui estudar no Rio. Ainda bem. Dia desses, recolhi da casa de mamãe uma caixa de cartas de remetentes já quase esquecidos. Trouxe junto uma caderneta do Salesiano. Os objetos velhos servem para preservar vínculos com épocas e lugares.
Eu sabia que iria encontrar naquele armário somente coisas sem qualquer utilidade aparente para os atuais moradores da casa. Inservíveis, como se diz no jargão do serviço público. Objetos desgastados pelo uso, surgidos de modismos passageiros, obsoletos pelos avanços tecnológicos, inutilizados por falta de partes fundamentais. Tralha, pura tralha: caixas de jogos de ficha, cadernos encardidos, pé de pato solitário, capas de máquina fotográfica, um mapa de Paris, cassetes, muitos cassetes. Livros de biologia, chapéu de feltro, peças de Lego, baralho incompleto, várias canetas ressecadas, bilhete de metrô, além de mouses, fones de ouvido, caixinhas de som e pilhas sem nenhuma energia.
Nas empresas, os homens também acumulam grandes quantidades de coisas inúteis. Estudiosos e consultores pregam a necessidade de livrar o ambiente de trabalho de tudo aquilo que não serve mais, que ocupe espaço inutilmente. A qualidade total pressupõe limpeza e organização.
Nas igrejas, nos terreiros, nas clínicas e hospitais os homens buscam ajuda para se livrarem do que lhes entristece a alma e lhes perturba a cabeça, fundamental para que possam viver sem o peso dos próprios pecados, sem os incômodos de seus traumas e sem medo de antigos fantasmas, acreditando na salvação. A cachaça também liberta e ajuda a esquecer.
Na democracia, as eleições existem para permitir que a limpeza dos armários públicos aconteça com data marcada, mediante a troca dos partidos e dos governantes. Ao menos em tese. É que os marqueteiros de campanha, todos regiamente pagos, estão se aprimorando cada vez mais na arte de moldar a imagem e as atitudes dos candidatos para torná-los mais convincentes e palatáveis aos olhos dos eleitores.
Aprendi com a vida que o poder revela a alma e o caráter de quem o detenha. Ao se ver livre de quem lhe imponha limites e respeito, o poderoso passa a agir guiado por seus próprios instintos, valores e interesses. Pessoas tornadas poderosas repentinamente podem exercer o mando de forma ainda mais imprevisível, naturalmente. Ao que tudo indica, só mesmo depois da posse é que se vai poder conhecer na prática a pessoa que exercerá os poderes presidenciais nos próximos anos. É cruel.
Alvaro Abreu
Vitória, 29 de Setembro de 2010.
Escrita para A GAZETA
