Dedo quebrado (ex- Para Sempre)

Dedo quebrado (Para Sempre)

Carrego no dedo médio da minha mão esquerda o resultado de uma decisão que tomei no primeiro dia das férias de verão, há mais de quarenta anos. O cenário era a quadra de cimento do Praia Tênis Club e eu estava no gol.

Durante um bom tempo, fui goleiro de futebol de salão, uma das mais ingratas funções no mundo esportivo. A bola é pesada e os chutes, todos, são dados à queima roupa. Era dia de treino do nosso time. Alguém enfiou o pé com vontade, a bola desviou no beque e bateu na ponta dos meus dedos. A dor foi forte, dessas de escurecer a vista. Sentado no banco dos reservas e com a mão dentro do balde com gelo que arranjaram no bar, fiquei pensando no dedo e na vida.

Se ele tivesse quebrado, haveria de engessar a mão por uns trinta dias. As férias estavam apenas começando e, além do mais, a competição estadual de natação seria na semana seguinte. Gesso e água não combinam. Muita gente conhece minha fama de nadador vitorioso. Não seria um dedo inchado que iria me impedir de ganhar mais umas medalhas. Imediatamente decidi não engessar. Para que pudesse nadar, bastava enfaixar o bendito dedo junto com os dois vizinhos. Foi o que fiz. Guardo até hoje as medalhas e esta marca da gana de vencer e da imprudência de rapaz.

Soube pelos jornais que vão construir um supermercado no lugar daquele clube, em que passei boa parte dos anos dourados da minha juventude. A piscina onde nadei quilômetros, o campo em que disputei peladas e jogos oficiais, a quadra de tênis onde Morris Brown sempre vencia, as varandas onde namorei bastante e a pista de dança onde tudo começava. Não mais freqüento aquele lugar e já nem sei o que existe lá dentro. Sei apenas que passar diante de um supermercado não me ajudará a relembrar histórias e façanhas que vivi ali.

Soube, também pelos jornais, que estão querendo construir uma usina termoelétrica movida a gás, bem na Ponta do Tubarão. Como tem sido usual, a notícia tinha tom ufanista e um forte cunho promocional. A empresa, em busca de simpatia e aprovação, ressaltava as vantagens do empreendimento, destacando a geração de muitos empregos temporários.

Confesso que fiquei preocupado. Uma obra dessas se inclui no rol das coisas definitivas, daquelas que podem afetar uma população inteira, por toda a sua vida. Seria mais uma chaminé funcionando a todo vapor, exatamente na reta por onde passa o vento nordeste a caminho de Vitória.

Não sou um especialista em termoelétricas. Nem tão inocente a ponto de acreditar que elas só trazem benefícios. Todas elas têm chaminés por onde sempre escapam nitratos e sulfatos em quantidade. A altura delas não reduz as emissões, quando muito, influencia na distribuição espacial da sujeira. Os detalhes estão na internet.

Aprendi, com as perdas evitáveis e os danos irreversíveis, que a qualidade de uma decisão sobre assunto tão relevante depende da legitimidade das hipóteses adotadas, da honestidade das previsões e, sobretudo, do rigor da avaliação que se faça de suas conseqüências.

Usando o meu dedo quebrado como argumento e utilizando o bom senso que a idade me deu, defendo com boa convicção que se encontre lugar mais adequado para instalar a tal usina e que se tome o máximo cuidado para garantir que o supermercado não vá piorar ainda mais o trânsito da avenida.

Vitória, 23 de Junho de 2010.

Escrita para A GAZETA

Alvaro Abreu

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