Cartas, e-mails e encomendas
A circulação das palavras escritas faz o mundo cada vez menor, mas nem sempre a logística ajuda. Conto duas histórias para reforçar essa teoria.
Conheci Malu em 1966 debaixo do sol de meio dia, no inverno de Curitiba. Na ocasião eu era nadador relativamente veloz que acabara de fracassar nas águas geladas da piscina. Corriam os Jogos Universitários Brasileiros e eu, já liberado de compromissos, buscava assunto em frente ao restaurante dos atletas. A conversa foi rápida e ela prometeu me mandar cartazes para completar a parede do meu quarto, mania da época. Cumpriu a palavra e, surpreso, escrevi agradecendo.
Nos anos seguintes escrevi muitas cartas para Malu na Lettera 22 lá de casa. Nunca além de uma única página. Suas respostas eram curtas e enigmáticas e jamais se referiam às missivas anteriores. Sem conexão de assuntos nem regularidade na correspondência, até hoje.
As cartas eram postadas lá no centro da cidade e demoravam mais de sete dias entre Vitória e Bragança Paulista. A espera fazia parte da brincadeira.
Em 2005 recebi e-mail de pessoa cautelosa e protegida por um endereço de hotmail. Disse ter tomado coragem de escrever após visitar meu site, curiosa em conhecer as colheres que faço com bambu. Assinava Sissi.
Disse que gostava de fazer trabalhos de mão utilizando corriola, uma fibra natural existente na terra em que vivia. Achei graça e tratei de informá-la que, por aqui, corriola é coisa que não convém a moças refinadas. Ela vivia em um ponto do arquipélago dos Açores, que consegui visitar com ajuda da internet.
Percebi se tratar de pessoa atenta e determinada. Completara o curso de zootecnia e começara a trabalhar em um matadouro público. Achei a ocupação meio estranha, mas acabou virando tema de conversa, ao lado dos sabores e das banalidades da vida.
Quem não vê cara, não vê coração. Durante meses, os e-mails vieram sem imagens da remetente. A única fotografia que anexou depois de muita insistência, não me permite identificá-la entre pessoas andando na rua ou comendo broa de milho em ilha oceânica.
Assim também havia sido com Malu. Tudo a que tive direito foi uma foto dela numa turma de estudantes. Uma seta apontava uma moça de saia escura e blusa clara. Dava para ver que era meio loira. Só.
Dela recebi estranhos presentes, dentre eles um grampeador e um cinzeiro de colocar em braço de sofá. De Sissi ganhei uma geléia feita com uma espécie rara de uva silvestre que colheu nos altos do Pico, que revela o arquipélago aos navegantes. O pote chegou às vésperas de um Natal, protegido por um cestinho de corriola trançado a mão. Em retribuição, mandei um pacote com o livro que escrevi e duas colheres de bambu de primeira. Demorou meses para chegar ao destino.
Em meados de novembro, Sissi escreveu dizendo que um precioso queijo de leite de ovelhas já estava a caminho de Vitória. Vinha como um presente atrasado de aniversário. Imediatamente comecei a esperar e a imaginar o gosto do produto.
No começo da semana, ao me ver de volta das férias, a senhora da portaria do prédio, a quem tantas vezes perguntei pela bendita encomenda, foi logo dizendo:
– Acho que Papai Noel comeu o queijo que o senhor estava esperando.
Vitória, 06 de Janeiro de 2010.
Alvaro Abreu
alvaro@bambuzau.com.br
Crônica para A Gazeta
