Baleias

Baleias

Notícia de baleia morta na praia faz lembrar o que vi em Costinha, uma vila de pescadores na foz do rio Sanhoá, bem em frente de Cabedelo, na Paraíba. A caça da baleia era feita em alto mar e seu resultado mostrado como atração turística em terra firme. Corria o ano de 1987.

As baleias vinham amarradas pela cauda nos costados do pequeno navio japonês. Três, cinco, oito, dependendo do dia. Depois de soltas, ficavam boiando até que fossem rebocadas por um guincho, uma de cada vez,  praia acima até um grande cimentado, onde quatro homens de branco, impecavelmente limpos, as aguardavam. Dois de cada lado.

De pé, imóveis, eles olhavam atentamente para a baleia que se aproximava. Cada qual segurando firme, com as duas mãos, a sua ferramenta de trabalho: um grande cabo de madeira com uma lâmina de aço presa na ponta.

Naquela posição, pareciam atletas de salto com vara, concentrados, aguardando o momento certo para começar a agir. Não saberia dizer o que pensavam aqueles homens, nem o que sentiam, mas dava pra ver que eles estavam ansiosos. Éramos uns duzentos espectadores olhando tudo bem de perto.

Quando o rabo da baleia chegou diante dos homens, cada qual pressionou sua lâmina sobre a pele preta. Na medida em que o corpo ia passando por aquelas navalhas afiadíssimas, a pele ia sendo dividida em tiras longitudinais, da cauda até a cabeça.

Presas a cabos de aço, as tiras iam sendo arrancadas, como casca de banana. O barulho era desagradável, de algo sendo esgarçado, descolado. Junto com a pele saia também uma grossa camada de gordura. Na verdade, ao parar, a baleia estava literalmente descascada, restando uma enorme massa de carne sangrenta e escura.

As barbatanas e a cauda foram rapidamente amputadas com a ajuda de lâminas pontiagudas. O serviço exigia perícia. Os homens aplicavam golpes, certeiros e sucessivos, cada qual com seu estilo. O ritmo era um só, frenético. A habilidade e a frieza daqueles trabalhadores aumentavam o impacto produzido pelos cortes profundos na carne vermelha. Muita gente não agüentou a cena e abandonou o lugar.

Com golpes longos e arredondados, agora com lâminas mais largas, eles iam produzindo, com facilidade, planos horizontais e verticais naquele tecido fibroso. Nacos, tiras e espécie de tijolos de carne iam sendo jogados em caixas brancas que, cheias, eram levadas em carrinhos de mão para um galpão ao lado. Lá seriam recortados em pedaços menores e embalados para exportação. O restante seria transformado em carne de sol. Os ossos eram levados num caminhão. Com um jato de água muito forte, lavaram o que havia de sangue pelo chão para um ralo enorme.

Em menos de meia hora, aqueles homens de branco haviam feito uma baleia inteira desaparecer diante dos meus olhos. Enquanto esperavam a próxima, eles conversavam afiando suas ferramentas. Não há como esquecer o que vi.

Hoje, a pesca está proibida no Brasil. Muitas centenas de baleias, sobretudo, Jubarte passam uma boa parte do ano na região de Abrolhos. Salientes, em festa de acasalamento, esguicham água, saltam e abanam a cauda, para quem quiser ver. Chegam em pequenos grupos, no meio do ano, em busca das nossas águas quentes. Pelo que sei, é quando alguma se desgarra, perde o rumo e encalha no raso da praia.

Baleia na areia é uma cena triste, que faz pensar na morte e na vida.

Alvaro Abreu

Vitória, 01 de Setembro de 2010

Escrita para A GAZETA

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