Haja estômago
Envio minhas crônicas para o jornal no começo da tarde das quartas feiras. Esta, que segue esse padrão, foi escrita horas antes da sessão do STF para o julgamento do habeas corpus preventivo em favor de Lula. Os prognósticos são favoráveis à concessão do direito de ele não ser preso, embora a última decisão do colegiado, em pleno vigor, seja em favor da possibilidade de prisão após esgotados os recursos ao tribunal de segunda instância. O Supremo está em situação muito precária, desacreditado, no entender de muita gente. É bom que se diga que foram alguns dos próprios ministros que colocaram a corte nessa espécie de sinuca de bico, bastante desconfortável para muitos deles e extremamente temerária para todos nós.
Debates e acusações ganharam força na imprensa e nas redes sociais. Acompanhei a movimentação de senadores e de mais de 5.000 juízes e promotores em defesa da legalidade de tais prisões, algo de proporções inimagináveis. Também fiquei sabendo de um manifesto supostamente subscrito por mais de 3.000 advogados, em defesa da liberdade de criminosos já condenados, sobretudo daqueles que cometeram safadezas políticas, crimes contra a nação, tráfico de drogas e coisas do gênero. Com a devida vênia, fico com o pessoal da primeira turma, dado que na segunda estão os que operam movidos pelos interesses de seus negócios. Condenados endinheirados investem verdadeiras fortunas para conseguir ficar fora das grades pois, mesmo sabendo que a justiça pode mandar prendê-los um dia, o fazem confiantes de que seus processos irão prescrever.
Logo após enviar a crônica, sentarei diante da TV para acompanhar a sessão histórica. Otimista, conto com os votos legalistas da gaúcha elegante e do decano prolixo. Imagino que, numa eventual situação potencial de derrota no voto, vai ter ministro pedindo vistas ou colocando na mesa, no linguajar corrente na corte, processos que permitam tentar rever decisão firmada pelo plenário em favor da prisão. Seriam atitudes desesperadas para garantir impunidade, sem qualquer compromisso com a democracia.
Vitória, 04 de abril de 2018
Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA
