Ensaio Geral
Venho acompanhando, à distância e com alguma curiosidade, a escolha dos nomes do primeiro escalão e as marchas e contramarchas nas definições de como deverá ser o próximo governo. Quem esperava uma linha de conduta errática e muita bateção de cabeças, deve estar surpreso ao ver o presidente eleito se saindo razoavelmente bem até aqui. O enxugamento radical do conjunto de ministérios e órgão públicos vai concentrar poderes em mãos de uns poucos homens e pouquíssimas mulheres de sua inteira confiança, o que poderá facilitar a adoção de um estilo de governar baseado na delegação de poderes e no total respeito à hierarquia, que ele tanto preza.
De fora, sem saber dos bastidores e das movimentações de elefantes e camelos de diferentes origens em busca de espaços e poderes, pode-se dizer que as escolhas têm sido feitas de forma relativamente independente de interesses corporativos e da influência de partidos políticos. Seria promissor se assim também fosse a escolha dos dirigentes dos escalões inferiores, de quem coloca as mãos na massa e que, eventualmente, mete o pé na jaca. O tal aparelhamento do estado é um enorme nó górdio a ser desatado.
Posso estar enganado, mas acho que tem muita gente com as barbas de molho, fazendo cara de paisagem e, sobretudo, esperando a poeira baixar. Jogadores profissionais não se precipitam nem se comovem com as aparências nas primeiras cartadas. Usam a paciência e a avaliação cuidadosa da situação como armas estratégicas para a preparação do bote. É hora de tentar decifrar atitudes, conferir a direção e a intensidade dos ventos para tentar saber pra onde o rebocador está indo. Macacos velhos não enfiam a mão em cumbuca.
Com os adversários ainda lambendo as próprias feridas e procurando razões e responsáveis pelo tranco que levaram nas urnas, a marcação oposicionista ainda não começou. Também dá pra ver que as turmas do facebook estão bem mais calmas e que tem muita gente de ressaca cívica, já meio arrependida das bobagens que fez durante a campanha. Não deixa de ser animador.
Vitória, 14 de novembro de 2018
Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA
