Pra lá e pra cá
Correr durante 12 minutos e medir os metros percorridos. Quem não conseguisse correr, que marchasse ou andasse o mais rápido possível.
O resultado era levado para uma tabela de valores de referência, que denunciava o grau de incompetência física do cidadão naquele exato momento da sua vida. Edificante para os mais fortes, cruel para os mais debilitados. Independente de idade, sexo e variáveis afins, cada qual era colocado diante de si mesmo por uma métrica criada para avaliar o condicionamento físico dos soldados americanos.
Magro e com cara simpática, Cooper, esse era o nome do seu idealizador, conseguiu espalhar pelo mundo um método muito prático de auto-avaliação. Isso, num tempo em que muito pouca gente se preocupava com saúde e desempenho. No máximo, jogava-se pelada em campo de terra, frescobol na praia e vôlei no meio da rua. No final dos anos 60, academia era lugar de halterofilista, não se falava em meio ambiente, nem em taxas de colesterol. Morria-se bem mais cedo, por falta de hospitais decentes, boa medicina, remédios eficazes e, sobretudo, de cuidados pessoais.
Mente sã em corpo saudável, era a máxima que enaltecia cuca fresca e bem estar físico. Quase que um lema de escoteiros alertas. Trazida provavelmente da Grécia, era a referência maior para indicar pessoas de bem com a vida. Nos colégios, além de estudar a lição, todo aluno era obrigado a fazer flexões e muito polichinelo. Tudo muito simples, como a maioria das coisas de antigamente.
O teste de Cooper virou mania. Até jogadores de seleção foram endeusados e crucificados na Copa de 70, dentre os quais Brito, um incansável xerife da nossa defesa e Gerson, que tirava vantagem da pontaria para não precisar correr muito.
Acho que o bom senso fez os especialistas entenderem que correr pode ser perigoso e o mundo inteiro acreditar que quem caminha é mais feliz. Deu no que deu. Basta observar o bando de gente que enche as calçadas diariamente, nos começos de manhã e nos finais de tarde. Tem quem caminhe até mesmo debaixo de chuva de vento sul.
Saudáveis, animadinhos, comunicativos, esnobes, envergonhados, convictos, temerosos, oferecidos, distraídos, interessados, confiantes, lerdos, redondos. Atletas de todo porte, jovens empresários, técnicos especializadíssimos, vendedores de carros, ambulantes, bandidos veteranos, mocinhos joviais, políticos em geral, ex-poderosos, dirigentes senhoras assanhadas e totalmente sérias, mulheres musculosas, debutantes coloridas, donas de casa gordinhas e muitos mais. Cada qual ao seu modo, cada um em seu mundo pessoal, os brasileiros enchem calçadas em busca de satisfação, saúde, distração, oportunidades.
Vestindo roupas que refletem as intenções de cada dia e calçando tênis cada vez mais poderosos e aderentes às características do usuário e às condições das pistas, movimentam-se com estilo personalizado e em velocidade definida. Caminham de um lugar para outro por obrigação, hábito ou vício, sem ao menos pretender chegar a um lugar qualquer.
Acho que muita gente, como eu, já faça parte da paisagem urbana junto com os coqueiros, a areia da praia, os bancos da calçada, a fumaça das chaminés. Tanto que há quem nos cobre por ausências eventuais na cena diária.
Alvaro Abreu
alvaro@bambuzau.com.br
Vitória, 09.12.2009
