Eleições sem investimentos privados

Eleições sem investimentos privados

As eleições deste ano estarão livres dos dinheiros oficialmente vindos de empresas. Em setembro passado o STF tornou ilegal a prática de doações empresariais nas campanhas eleitorais. Neste caso, o termo doação carrega em si uma boa dose de cinismo e de má intenção. Todos nós sabemos que não existe almoço grátis, nem jantar. Para ser mais exata e efetiva, a legislação deveria tratá-las como investimentos.

Tal proibição deverá provocar impactos positivos no processo de escolha dos vereadores e prefeitos Brasil a fora, ainda mais porque o futuro presidente do STE prometeu uma espécie de guerra santa contra o caixa dois. Em tempos de Lava Jato, sou forçado a acreditar que teremos uma eleição atípica: mais barata e com menor influência do poder econômico, sobretudo das grandes empresas.

Lembro-me de ter lido sobre o uso da palavra “obrigado” em sinal de agradecimento a quem proporcione algo que nos agrade ou favoreça. O autor mostrava as diferenças entre o nosso modo de verbalizar tais emoções e os de outros povos latinos. Nós e os portugueses dizemos obrigado, vindo do latim obligare, que expressa dívida, obrigação, compromisso moral em retribuir o que foi recebido. Outros usam gracias, grazie, grácies, tudo saído de gratias, da mesma fonte, que expressa tão somente agradecimento.

Tem sido prática corrente entre empresas poderosas investir em candidatos que apresentem maiores chances de vitória, sobretudo naqueles com maior potencial de manter fidelidade aos interesses delas. A expectativa de retorno desses investimentos se materializa de duas formas distintas: favorecimento nas contratações de obras e serviços e aquisições de bens de consumo e na garantia para realizar suas atividades inteiramente livres da interferência restritiva do poder público. Aqui, elas investem mais pesadamente nos candidatos que aprovariam leis compensadoras e naqueles que seriam propositadamente negligentes na responsabilização por danos às pessoas e ao meio ambiente. As obrigações dos eleitos serão só com seus eleitores.

Vitória, 24 fevereiro de 2016

Alvaro Abreu

Escrita pra A GAZETA

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