Utilidades do apêndice
Passei os últimos dias por conta de um apêndice. Desses inflamados, que precisam ser retirados o mais breve possível para evitar complicações. Depois de noite mal dormida e de ter acordado com uma dorzinha persistente no lado direito da parte baixa da barriga, achei prudente procurar por socorro da medicina. O incômodo que sentia não era alarmante, mas uma indicação segura de que alguma coisa não estava indo bem. Nessas alturas da vida, tenho acumuladas algumas experiências nessa área: uma inesquecível aventura coronariana, uma retirada, a toque de caixa, em plena madrugada, de vesícula cheia de pedrinhas e uma operação, postergada ao máximo, para acabar com uma hérnia inguinal. Lá na infância, tomei anestesia para engessar um braço quebrado por imprudência e, em pleno verão de juventude, tive que ir a um pronto socorro para costurar um talho no queixo, aberto por uma raquetada de frescobol.
Tem muita gente que vai ao médico como quem vai ao cinema. Basta uma simples desconfiança de uma não conformidade e lá estão eles esperando a vez de serem atendidos, dando o braço para tirar sangue, abrindo a camisa para o exame de ultrassom. Confesso que ao tempo que os critico, sinto certa dose de inveja da coragem com que buscam respostas para suas suspeitas eventuais. Não estou me referindo aos hipocondríacos e maníacos por saúde perfeita, que são poucos e, portanto, pontos fora da curva. Falo das pessoas que procuram um profissional da medicina com naturalidade, ao menor sinal de disfunção na barriga, nas pernas, braços e ombros, nas costas ou na pele. Os planos de saúde facilitaram o acesso aos mais diversos e sofisticados recursos de diagnóstico, de avaliação e de cura. Paga-se o preço, mas é muito bom saber que as facilidades existam e que estejam ao alcance.
Marcada a consulta para o comecinho da tarde, fui atendido por profissional recomendado, coberto de simpatias e cheio de certezas, tão logo apalpou a minha barriga com grande prática em diagnosticar apêndices problemáticos. O método é bem simples: aperta-se a região dolorida, aos pouquinhos, até bem fundo, e solta-se a pressão repentinamente. O que até então era uma dor difusa e perfeitamente suportável se transforma em uma dor aguda, muito forte, que rapidamente se dissipa. Repetindo o teste, a confirmação do problema é praticamente infalível. Um exame de ultrassom garantiu a prova formal da situação, indicando a próxima providência: retirada obrigatória do apêndice inflamado, com relativa urgência.
Assim, no início da noite, lá estava eu na recepção de um grande hospital em busca de atendimento, tendo uma malinha com roupa e escova de dente no porta-malas do carro. Daí pra frente, a coisa seguiu um processo rotineiro, etapa por etapa, sempre adiante, passando por registro, exames de sangue, internação e confirmação da cirurgia para a manhã seguinte. Dito e feito. Ali pelas duas da tarde, voltei de maca pro quarto com dois furinhos na barriga e umbigo refeito e no dia seguinte já estava em casa para o almoço. Nada de voo cego nem de correrias.
Acumulei um pouco mais de experiências com períodos de convalescência, incluindo momentos de euforia, arrependimentos por imprudências cometidas, dores novas e incômodos difusos, compressas com toalha aquecida no forno micro-ondas, comidinha de doente, muitos remédios, além da curiosidade receosa dos netos, da solidariedade de amigos e de muito dengo do pessoal de casa. Confirmei que esse é um tempo propício para rever o filme da vida e para refazer contas inteiras.
Vitória, 13 de maio de 2015
Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA
