Lamacento
Nesta semana estamos vendo fotos da lama da Samarco invadindo o Oceano Atlântico na foz do Rio Doce. O embate das águas gerou imagens de grande impacto, com o mar dando clara demonstração de resistência contra um poderoso inimigo. Visto de cima, o amarelo escuro da lama de minério de ferro ao lado do verde claro do mar mais parece um pedaço da bandeira brasileira. A alteração das cores me fez pensar que já entregamos o nosso ouro e já derrubamos as nossas matas e que, faz tempo, estamos deixando que levem nossos minérios, contaminem nossas águas e poluam o nosso ar, impunemente.
Aprendi que a lama tóxica, em contato com a água salgada, sofre um processo de espessamento da sua densidade, criando uma espécie de película muito resistente, uma parede de cima a baixo, que funciona como um verdadeiro divisor de mundos. É um fenômeno natural denominado de floculação, similar ao que é induzido, com o uso de cloro e outros produtos, para acelerar a decantação em piscinas e estações de tratamento de água e de esgoto. Por ação dos ventos e das correntezas, a barreira vai se expandindo e o que for mais pesado vai se depositando sobre uma lama rica que existe no fundo, própria das áreas próximas às bocas de rio, sendo que a da Rio Doce tem uns quarenta quilômetros mar a dentro e quase cem, ao longo da costa. Só Deus sabe por quanto tempo esse material tóxico ficará lá embaixo e quais os danos que trará para a vida marinha naquela região. De uma coisa eu sei: é exatamente ali que vivem os camarões da nossa moqueca.
Vinte dias após o rompimento da barragem da Samarco, ainda estamos sem informações confiáveis sobre seus reais impactos. Pior do que isso, me preocupa ver gente qualificada emitindo opiniões que minimizam a amplitude da tragédia e as obrigações dos seus responsáveis, forjando versões que confundem e enganam a população e alimentam os conformistas e os aduladores de plantão. Cito alguns fatos que foram noticiados pela imprensa: um professor da UFES afirmou que a lama não é tóxica, podendo ser tratada normalmente para consumo; um cientista da UFRJ se apressou em dizer que a mancha de lama tóxica não ultrapassaria quatro quilômetros ao norte da foz do Rio Doce e outros seis ao sul, conclusão prontamente alardeada pela ministra do Meio Ambiente; fotógrafo famoso, enaltecendo a preocupação ecológica das mineradoras, tem insistido que é possível salvar o Rio Doce a partir da recuperação das nascentes, tese já incorporada ao discurso do presidente da Samarco; o presidente da Assembleia Legislativa disse que a Samarco deve ser vista também como uma vítima da tragédia.
A realidade vem derrubando muitas das teses convenientes e oportunistas como essas, sejam elas de interesse político, financeiro ou do marketing pessoal ou empresarial: em Colatina, o Ministério Público confiscou as análises que fundamentaram a captação da água do Rio Doce; após três dias de despejo, a mancha de lama já tem quase quarenta quilômetros ao longo da costa e uns dez na direção leste, fazendo crer que poderá atingir as franjas de Abrolhos, no mar de São Mateus; bom seria que o fotógrafo tivesse registrado essa tragédia com suas lentes poderosas, mas não se falou na complexidade e nos custos da dragagem da lama nos seiscentos quilômetros de rio nem na limpeza das suas margens; vitimar a Samarco me fez relembrar do julgamento de um facínora que havia assassinado a própria mãe, no qual o advogado de defesa, com a voz embargada, implorou aos jurados: “ Senhores, tenham pena deste pobre órfão!”.
Vitória, 25 de novembro de 2015
Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA
