Morena do Ônibus
Na volta da cidade, em pleno horário do rush, dei de cara com os olhos de uma morena.
Estávamos, os dois, de pé no corredor, na traseira do ônibus. Menos de um metro de distância nos separava. Em volta, muitas caras cansadas, tristes, comuns em ônibus de dia útil. Expressões de tédio e desânimo. Ela destoava do conjunto e parecia saber disso.
Vi que ela também me viu. De relance, como se houvesse conectado alguma coisa. Sutil ligação. O olhar, firme, indicava pessoa segura de si, conhecedora do próprio valor.
Era bonita. Rosto meio quadrado, sobrancelhas negras, cabelos cacheados por cima dos ombros. Não dava para saber a roupa que usava. Só conseguia vê-la do pescoço pra cima. Teria uns 22 anos.
Não é que estivesse quente, mas a sensação de desconforto era grande. Motor acelerado, roncando alto nas retas. Como uma ilha, ela se destacava naquele mar de gente. O branco da sua pele contrastava com o tom encardido dos rostos em volta. Ela parecia sorrir.
Fingindo ler a placa de Reclamações, vi, pelo canto do olho, que ela olhava na minha direção. Ao tentar fixar os meus olhos nos dela, ela olhou para baixo, meio tímida, meio provocante.
Na entrada do Túnel Novo ela deu a impressão de querer me dizer alguma coisa. Algo doce, gentil, provavelmente. Aquele impulso pareceu se repetir quando o ônibus passou pela esquina da Rua República do Peru.
Estava chegando a minha vez de descer. Fui andando na direção da moça, por entre os passageiros. Senti que ela acompanhava meus movimentos.
– Com licença…
Foi tudo o que consegui dizer. Em silêncio, ela franziu ligeiramente a testa, contrariada.
De pé na calçada, vi o ônibus arrancar. Sorrindo, queixo apoiado no braço direito, cabeça pendendo para o lado, parecia me dizer algo bem objetivo:
– Bobão…
Um mero balançar de cabeça teria sido suficiente pra quebrar a cerimônia e abrir espaço para uma troca de impressões sobre o clima, o trânsito, a paisagem do Aterro do Flamengo. Tudo, menos aquele silêncio improdutivo.
Confesso que não me reconheci. Era como se alguma coisa tivesse se alojado na minha alma de rapaz folgado, estabelecendo um novo padrão de comportamento, bem mais sério e reprimido.
Aquilo parecia ser fruto do que se ouvia nas conversas de freqüentadores dos divãs de psicanalistas e das pregações diárias de Mário, colega de pós-graduação, defensor radical e intransigente do respeito total à individualidade e da plena garantia ao espaço alheio. Cada um na sua, custando o que custasse.
Mas Deus protege os oprimidos.
Semanas depois saí com Mário para procurar apartamento. O dinheiro era curto, mas ele precisava sair urgentemente da casa dos pais, em busca de privacidade.
Depois de muito rodar e de entrar e sair de edifícios, Mário resolveu estacionar o carro de frente para o mar, em Ipanema.
Sentada no banco de cimento, metida num short apertado e camiseta colorida, risonha como nunca, lá estava ela: a morena do ônibus.
Naquele final de tarde de sábado, cheio de razões e teorias, Mário poderia ter voltado sozinho para casa.
Vitória, 04. 08.2009
Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA
