Em terra e no mar

Em terra e no mar

Pelo que pude ver, muita gente sente saudades dos tempos que os apelidos não eram bullyng. É que recebi reclamações por não ter mencionado Abelha Rainha, Baianinho, Bebeu, Bibelô, Bibinha, Biriba, Bitiza, Boca de Velha, Boião, Boquinha, Bororô, Bossa Nova, Bridadeiro, Brigite Barbante, Bruaca, Brucutú, Bustrica, Cação, Cachaça, Caluca, Canário Belga, Capoteiro, Caranguejo, Careca, Caticôco, Catita, Chico Banha, Coelhinho, Dadau, Deixa que eu Chuto, Dr. Bezerro, Escambau, Esperança, Narigão, Gasolina, Hortelino Trocaletra, Ico Penico, Jagolê, Japira, Jiboia, Kinkas, Leléo, Macarrão, Maneco, Tomba-Homem, Marreta, Melau, Memente, Miluth, Monovo, Muito Pesado, Nena, Neneu, Neneua, Corôa, Chôco, Sabiá, Tora, Pelota, Peroal, Pica, Piloto, Piluta, Pipila, Pipoca, Pirica, Poró, Pulú, Quadrado, Queixo de Velha, Robeci, Ronaldo Beleza, Seis e Meia na Praça, Sobrado Velho, Squiff, Suvaco Ilustrado, Tobinha, Tuzoca, Zé Pequeno e Zé Queca.

Devo dizer que também guardo na memória nomes de barcos de cenas antigas de bairro à beira mar: Nega Maluca, Bacanau, Canadense, Tan Tan, Aspirante, e Cavalo Doido. Foi com eles que velejei, pesquei e remei, sempre em companhia de gente amiga. Essas lembranças chegaram com mais força ao tomar coragem para remar canoa havaiana, depois de acompanhar, sempre com inveja receosa, amigos e parentes fazendo alongamento na areia da praia, empurrando canoas para o mar, embarcando nelas quando começam a flutuar e dando as primeiras remadas sob a orientação de profissional satisfeito com o trabalho que escolheu para viver.

Já fui remar três vezes. Na primeira, mais aprendendo do que fazendo força, fomos até a Gaeta de Fora, com mar revolto. Na segunda, em águas calmas, contornamos a ilha do Frade sem qualquer dificuldade. Na outra, seguimos rente à Ponta Formosa, até a ilhota de pedra em Camburi. A nossa canoa entra no mar lá pelas seis e meia da manhã. Nestes tempos de inverno, o sol está bem baixo e os ventos nem começaram a soprar, deixando as águas espelhadas. A paisagem enche a vista e anima o espírito do remador.

As canoas havaianas têm uma mística. Talvez porque vêm sendo usadas há milênios pelos povos da Polinésia para ir de uma ilha a outra e enfrentar grandes distancias por mares desconhecidos. Elas surgiram na cidade há uns sete anos, logo depois que chegaram ao Brasil. Seu casco é longo e estreito. As maiores têm 6 bancos. Para garantir estabilidade, um flutuador sustentado por duas peças curvas de madeira é acoplado à canoa. É comum amarrarem duas delas, formando um catamarã. Na proa, um remador experiente dita o ritmo das remadas e quem está no banco três comanda as mudanças de bordo. Sentado na popa, o responsável pelo rumo da embarcação, usa o remo como leme e vai repetindo palavras de ordem como mantra: vai canoa; rema junto; canoa remo lá na frente; agora seis passadas fortes; potencia e cadência … Com os movimentos em sincronia, a canoa navega suavemente e em boa velocidade.

Ainda não me acostumei com as remadas curtas e rápidas usadas nesse tipo de embarcação que, dizem, têm maior eficácia. No Canadense as remadas eram longas. Tenho prática em fazer exercício respeitando os meus limites, que mudam de dia para dia. Para quem, como eu, tem coração prejudicado, o esforço deve ser moderado e progressivo. Na canoa, a variação na intensidade das remadas e a alternância sistemática do bordo de ataque proporcionam boa distribuição da carga do exercício, tanto que até agora a musculatura não reclamou nem sento o peito doer.

Vitória, 08 de julho de 2015

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

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