Cidade maravilhosa

Cidade maravilhosa

A lei que criou o PDU – Plano Diretor Urbano de Vitória, para regular e orientar a ocupação do seu território, estabelece que ele será atualizado a cada dez anos. A Prefeitura deu partida ao processo de revisão, soltando campanha informativa e criando um cronograma de reuniões para consultas por região e outras para debate de temas de interesse comum. A intenção é ouvir a população para conhecer expectativas gerais e específicas que deverão resultar em propostas a serem levadas à Câmara de Vereadores no início de 2016.

Tenho acompanhado o desenvolvimento de Vitória desde que cheguei aqui, em 1958, quando me deslumbrei com a recém-inaugurada Avenida César Hilal, com uns seis prédios (que me pareceram grandes e altos). Aos olhos de menino do interior, aquela era a própria imagem do progresso. De lá pra cá, presenciei enormes transformações no cenário urbano, incluindo o aterro de vastas áreas de manguezal e do mar para receber grandes avenidas e bairros inteiros. Com olhos ingênuos, vi acontecer a degradação do Centro da cidade e, com grande pesar, a desconfiguração dos conceitos expressos no projeto Novo Arrabalde. Assisti o inchaço do trânsito e o surgimento dos semáforos por todo lado, a verticalização das construções, o emparedamento de vistas e lugares, a ocupação desordenada de encostas e muito mais. Mudanças radicais, que aconteceram em ritmo alucinado, estimuladas, sobretudo, pela oportunidade de obter bons lucros com metros quadrados de construção.

Localizada no centro de uma região em crescimento vertiginoso, Vitória é obrigada a funcionar como lugar de passagem, o que impacta fortemente a vida de muita gente. Antes cantada como Cidade Presépio, Vitória se transformou em uma minimetrópole e até ganhou fama de bonita, o que dá uma pontinha de orgulho até mesmo em cachoeirenses como eu. Colorida e envidraçada, a cidade brilha e reluz emitindo sinais de elegância e bons modos. O vigor, a pressa e a afobação ficam por conta dos seus usuários.

Em uma dessas reuniões de consulta ouvi muitas das expectativas de moradores e de entidades ou grupos organizados. Todos seguros quanto à necessidade de garantir conquistas já alcançadas, de avançar com melhorias nos padrões de ocupação dos espaços urbanos e, principalmente, empenhados em não deixar estragar o que esteja funcionando bem. Defendeu-se a mobilidade, a criação de praças e áreas de lazer, a proibição de atividades poluidoras e, com destaque, a valorização da paisagem urbana. Ninguém defendeu adensamento e verticalização a qualquer custo, talvez em razão da crise do mercado imobiliário.

Da minha parte, considerando suas características geográficas e ressaltando suas vantagens competitivas, defendi que Vitória se estruture para abrigar, de forma crescente e em bases vigorosas, atividades produtivas inovadoras e de alto valor agregado, intensivas em conhecimento técnico-científico e que incorporem a inteligência das pessoas. Trata-se de uma providência para acelerar o surgimento de empregos de salários médios elevados e propiciar a geração de renda e de impostos em grande escala. Digo isso com boa convicção, por entender que se trata de uma alternativa para melhor aproveitamento das potencialidades de um já expressivo contingente de pessoas altamente qualificadas, das muitas instituições de ensino e pesquisa e das empresas de base tecnológica presentes na cidade. Vitória tem tudo para ser um lugar maravilhoso para se viver e para se ganhar muito dinheiro com ideias brilhantes e cabeças a mil.

Vitória, 15 de abril de 2015

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

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