Sob controle?
Tenho viajado bastante, quase sempre de avião. Quando os aeroportos estão cheios, a fila dos passageiros preferenciais é sempre uma boa alternativa para minimizar esperas e chateações. Resolvido o check in, tomado um café caro e comido o tradicional pão de queijo preventivo, é a vez de enfrentar a fila da revista e os tais procedimentos de segurança.
Depois do atentado às Torres Gêmeas americanas, percebe-se que a coisa vem num crescente. Agora equipamentos de Raio X estão por todos os lados e os funcionários, sempre muito bem vestidos de preto, dão instruções e fazem exigências com expressão de simpatia profissional, dessas que são ensinadas em cursos especializados.
Embora nessas ocasiões se tenha sempre a impressão de estar sob suspeita, percebo que muita gente, sobretudo o pessoal mais novo, já incorporou os procedimentos de controle em sua rotina. Tem quem adore ficar em fila em porta de boates e casas de show. Não imagino o que as velhinhas sentem ao passar por revista de aeroporto. Talvez achem que estarão seguras a bordo e que a vida está cada dia melhor.
Homem prevenido, tenho o costume de carregar o canivete suiço que ganhei de presente quando fiz trinta anos. Pode ser que apareça laranja pra descascar, parafuso para apertar ou alguma coisa para aparar com a tesourinha. Pois um dia, e isso já faz tempo, fui barrado na revista e tive que correr ao balcão da companhia para entregar o canivete para que viajasse aos cuidados da tripulação e me fosse devolvido na chegada. Agora ele sempre viaja na mala, junto com as goivas e faquinhas que antigamente eu usava para ir cortando bambu durante a viagem, sobretudo nas longas, quando o tempo custa mais a passar.
Acho que as normas e os tais procedimentos padrão estão em permanente aprimoramento. Tem sempre uma novidade. Dia desses descobri, na prática, que é proibido passar no detector de metais com as mãos nos bolsos e tive que repetir a operação com as mãos ao vento. Isso depois de ter que colocar os bilhetes de embarque na caixa de plástico na esteira, junto com o meu chapéu panamá de palha bem fininha. Ao mostrar a única nota de 5 reais que carregava na calça, me lembrei de Caetano cantando “nada nos bolsos ou nas mãos”.
Lembro-me de uma das primeiras vezes em que me senti sob suspeita num aeroporto. Foi em viagem a serviço para Salvador, acompanhado de um colega de Ministério. No embarque de volta para Brasília, fomos barrados sem qualquer cerimônia. Nós dois usávamos barba e a minha era dessas bem escuras e espessas. Ao conferir nossos documentos, o policial não queria aceitar as nossas carteiras de identidade porque nas fotografias éramos dois simpáticos rapazes imberbes. Ele nos deixou passar só depois de muita argumentação. Ao devolver o documento a cada um, disse que, embora sem barba, dava para reconhecer perfeitamente a gente. Seguramos o riso até entrar no avião com nosso documentos trocados.
Tenho visto, meio indignado, o raio-x apitando acusatoriamente ao detectar a presença de metal do fecho éclair das botas de cano longo. As cenas que se seguem são de puro constrangimento para as mulheres mais sensíveis. Elas são convidadas a usar uma espécie de pantufa para merecer a aprovação do equipamento, enquanto suas botas passam solenemente pelo crivo de um olhar entediado, pousado na tela de um monitor colorido.
Se no ar a segurança está sendo garantida, em terra firme a sensação de insegurança e impotência diante da violência cresce assustadoramente, sem qualquer sinal de reversão.
Vitória, 01 de abril de 2014
Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA
