Serviços especializados

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Uma casa tem sempre alguma coisa precisando de conserto. Normalmente são coisas simples, sem muita importância funcional ou estética, mas que, na convivência do dia a dia, nos obrigam a tomar providências. É porta de armário que não corre direito, é cadeira precisando de aperto, grade com ferrugem, boca de fogão entupida. Vez por outra tem mangueira de jardim furada, pé de mesa em falso, goteiras persistentes do caramanchão, grama precisando de poda e planta, de adubo. Nessa lista sem fim cabe também a faxina periódica no quartinho dos fundos, usar o jato d’água pra tirar pó de minério incrustados nas pedras do chão da entrada e nas paredes da casa e, eventualmente, de amarrar a tela que garante sombra pras orquídeas e trocar a lâmpada que ilumina a mesa lá de fora. Também não se pode deixar faltar comida para os cachorros e alpiste para os canários da terra.

Por certo, torneira pingando é situação corriqueira na maioria das casas dos brasileiros. Sobretudo se for torneira do box, que fica longe dos olhos dos moradores durante praticamente o dia inteiro. A gente só se lembra dela na hora do banho e ninguém vai interromper uma boa chuveirada para dar jeito numa mera pingação, sobretudo, se a quantidade de pingos por minuto não for suficiente para aumentar significativamente a conta de água no final do mês. É tipo do probleminha que faz a mulher reclamar diariamente e que obriga o marido a arranjar desculpas esfarrapadas e prometer que vai resolver tudo no dia seguinte.

Aliás, promessa é algo que jamais falta em situações como essa. Enrolação e falta de vergonha também. A meu favor, posso garantir que muitas e muitas vezes me vi diante de prateleiras de material de construção tentando me lembrar do que estava precisando e sair de lá sem as benditas carrapetas para a torneira do chuveiro. O fato é que com a demora em resolver o problema, a situação foi ficando crônica, a ponto de me obrigar a tomar uma providência radical: trocar as duas torneiras inteiras e acabar, de vez por todas, com as dores nos dedos dos pés, quando golpeados pela maçaneta de metal que vez por outra caía no chão por falta do parafusinho que a mantinha no devido lugar. Em agradecimento, recebi um “até que enfim”.

Homem prevenido, tenho um pequeno armário com um pouco de tudo: barbantes, fio urso e linhas variadas, colas, parafusos e pregos de todo tipo, fitas isolante, fita crepe, arames de aço, fios de nylon, arruelas, prendedores, além de pedaços de couro, de câmara de ar de bicicleta e uma grande quantidade de coisas inservíveis, como se fala no serviço público. Tudo de grande utilidade para fazer reparos emergenciais e magaivices variadas. Devo deixar claro que tenho medo de choque. Até conserto fio de abajur e de ferro de passar roupa, mas quem quiser que faça os devidos testes. Em eletrônica, sou zero à esquerda. Uma limitação grave, na medida em que as casas foram incorporando equipamentos recheados de sistemas digitais, incluindo os computadores e os aparelhos de TV e de ar condicionado e os portões automáticos acionados por controle remoto.

Não tenho explicações, mas sei de muitas casas que nem martelo têm e, muito menos quem serre, aparafuse e remende qualquer coisa. Talvez por isso sempre encontro cartões de técnicos e de empresas oferecendo serviços de reparos em geral na nossa caixa de correios. Outro dia uma amiga me contou, feliz da vida, que havia contratado um desses “maridos de aluguel” e ele resolveu, praticamente, todos os problemas que havia no seu apartamento.

Vitória, 05 de março de 2014

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

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