Se sujou, pague pra limpar
Normalmente começo a semana com a crônica praticamente pronta, restando apenas fazer pequenos ajustes na forma e, às vezes, também, no conteúdo. O distanciamento ajuda a localizar o que pode melhorar. Reler o texto um tempo depois aproxima quem escreve da condição do leitor de jornal. Tanto daqueles que não têm obrigação de ler o que está impresso, como dos que interrompem a leitura por desinteresse no assunto, por discordar do que está sendo dito ou, o que é pior, por achar o texto chato, sem humor ou boa consistência. O mais difícil para quem escreve é conseguir prender a atenção do leitor até a última linha. E aqui estou eu fazendo mais uma tentativa, a primeira de 2014.
Começo esclarecendo que escapei mais uma vez de me vestir de Papai Noel para fazer graça para os netos mais crescidinhos. Como não conseguiram arranjar a fantasia a tempo, me fizeram usar um gorrinho na hora de tirar fotografias para o álbum de família. Melhor assim. Melhor ainda é que o fim das chuvas aconteceu justamente na noite de Natal, abrindo para muitos a contagem de um tempo de recomeço, de respirar fundo, trabalhar duro e seguir em frente. De lá pra cá as águas baixaram e o sol de céu lavado ajudou a secar o que esteve encharcado durante muitos dias e, inclusive, a acabar com a goteira do nosso quarto.
Depois de tanta chuva, o verão se instalou com força total e as praias estão lotadas. No mar, tem muita gente acelerando os motores de lanchas e jet skis, posicionando as velas de barcos, remando em canoas e em cima de pranchas. Em terra firme, muitos andam, alguns correm, outros pedalam, guardinhas multam e vendedores de picolé fazem a festa. Nos ares, o vento nordeste tem soprado muito forte, trazendo, involuntariamente, grandes quantidades do pó preto que sai das chaminés e das pilhas de minério lá das bandas da Ponta de Tubarão.
Em animada roda de amigos em casa de parentes, um professor atento lembrou que este ano a poeira deve piorar bastante com a entrada em funcionamento de mais uma usina de pelotização e a retomada do ritmo da produção de aço na siderúrgica. Foi o suficiente para que muitos se declarassem cansados de esperar por providências por parte dos governos. Acho que hoje praticamente já não existe mais quem aceite calado esta situação. Quando muito, tem gente que prefere não reclamar da sujeira na presença de desconhecidos e autoridades. Em agosto de 1987, quando viemos morar em Vitória, reclamar do pó de minério era coisa de uns poucos cidadãos destemidos.
Para abastecer a conversa contei que começara o ano lavando o tronco e os galhos da nossa jabuticabeira, cobertos que estavam por uma grossa camada preta. Em tom amargo, um dos amigos disse que sempre que o pó preto aumenta muito ele perde carpas que cria em um laguinho no jardim. Reforcei dizendo que uma das nossas filhas havia comprovado por A + B que o pó de minério interfere negativamente na reprodução de ouriço do mar e que até ganhou prêmio da Prefeitura por suas pesquisas.
Ao escrever novamente sobre essa espécie de tragédia crônica que aporrinha tanta gente, fiquei me perguntando se caberia entrar com uma ação no juizado de pequenas causas exigindo que as empresas poluidoras pagassem a diária da faxineira que passou a segunda feira limpando o pó preto que cobria a casa inteira. É que, por recomendação expressa do pessoal que veio fazer a dedetização geral no sábado pela manhã, tivemos que passar dois dias fora de casa, deixando as venezianas das janelas abertas para acabar com o cheiro forte do veneno.
Vitória, 07 de janeiro de 2014
Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA
