Preparando a pescaria

Preparando a pescaria

Na quinta feira passada recebi mensagem de Cláudio, meu irmão mais novo, informando a data de sua chegada em Vitória e dizendo que gostaria de fazer uma pescaria com os irmãos, coisa que há muito não acontece. Afonso deve ter gostado da proposição e pensado que, desta vez, eu não teria escapatória. Faz tempo que ele reclama do fato de eu ter parado de pescar, de ter abandonado a nossa pequena turma de pescaria, espécie de confraria semi-aberta.

Na manhã de sábado, foi a vez de receber, ainda no portão, uma convocação irrecusável de Theo, meu neto mais velho: “vamos pescar?”. Ele disse isso com a melhor cara deste mundo, com os olhinhos brilhando e saltitando de emoção. Imagino que tenha vindo no carro pensando nisso desde soube que viria pra cá. Se, em outras ocasiões, eu tinha conseguido me safar, agora só me restou concordar e ir lá dentro apanhar a chave do carro para ir comprar varinhas de pescar. Vida de avô, como muita gente sabe, é cheia de emoções e de algumas doces obrigações.

Lá fomos nós, Manu também, para a Praia do Suá, lugar de pescadores, barcos e peixes, onde sempre se pode encontrar material de pesca. Nem bem chegamos e Theo já foi logo anunciando que foi ali que ele havia pegado um peixe, o primeiro da vida dele. Isso aconteceu quando fomos passear no pequeno atracadouro para barcos de pesca que existe perto e que, imagino, pouca gente conhece. Vendo o interesse do menino, um senhor que pescava lhe emprestou a sua varinha sobressalente. Nem bem a linha afundou, uma caratinga mordeu a isca e puxou pro fundo, até quebrar a vara. Tirar aquele peixe do mar deu um bom trabalho, um verdadeiro alvoroço, garantindo lembrança pro resto da vida.

Foi preciso entrar em três lojas para encontrar as tais varinhas de bambu. Na duas primeiras, só havia varas industrializadas, inclusive umas de fibra de carbono, caríssimas, para avós de maior poder aquisitivo e pescadores iniciantes do tipo consumidores vorazes. Usei da minha vasta experiência para escolher cinco varinhas firmes e de cabo grosso, o que facilita a pega e a sua identificação. Não sei se é do conhecimento geral, mas vara boa tem dono determinado e é de seu uso exclusivo. Pescar com vara alheia dá azar e pode até acabar em briga. Aproveitei para comprar um pouco de camarão pequeno que, sendo sábado, estava com preço de camarão VG. De volta pra casa, tentei ensinar os netos a preparar a isca: tirar a cabeça, descascar e cortar em pedacinhos, providência básica para ganhar tempo na pescaria. Só Manu se interessou.

Resolvido isso, era chegada a hora de encastoar as varas. Precisava de linha, chumbinhos e anzóis pequenos, próprios para pegar berés. E cadê que achava a minha velha bolsa de pescaria, totalmente fora de uso há uns bons dez anos? Não estava no armário do corredor, seu lugar de sempre, nem no maleiro do quarto dos meninos, espécie de arquivo morto da casa. Depois de muito bater cabeça, fomos encontrá-la dentro de um dos baús de madeira que trouxera da Paraíba. Ela me foi dada de presente por minha irmã Beatriz, para substituir uma outra, que estava literalmente no fim, de fazer vergonha. Feita de lona vermelha bem resistente, tem duas bolsinhas laterais para coisas menores e de uso mais intenso. De bom tamanho, comporta de tudo um pouco, inclusive utensílios para sobrevivência e emergências eventuais. Ela está bem surrada e nenhum dos três fechos-éclair funciona mais. Remexer o seu conteúdo foi uma viagem no tempo, o que bem merece crônica específica.

Vitória, 09 de dezembro de 2014

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

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