Passarinhos, cachorro e eleiç╞o

Passarinhos, cachorro e eleição

Depois de conseguir que o filhote de sabiá da praia comesse mamão bem pertinho do meu jornal, foi a vez de fazer com que ele, agora já taludinho, pousasse no meu chapéu sobre a mesa para comer o pedaço de mamão colocado lá como um atrativo especial. Depois de algumas tentativas bem sucedidas, resolvi colocar o chapéu na cabeça e esperar que ele ganhasse confiança. Logo depois, com boa facilidade, dei uns sete ou oito passos antes que ele se espantasse com a minha filha que filmava a cena com o seu celular.

Dia desses apanhei no chão da garagem um filhote de bem-te-vi ainda sem rabo e com a plumagem incompleta. Ele deve ter caído do ninho ou, o mais provável, fez um pouso forçado, para descansar do esforço que anda fazendo para aprender a voar. Não foi nada difícil pegá-lo. Bastou enxotá-lo para um canto de parede e usar as duas mãos com bastante cuidado. A providência se fazia necessária para livrá-lo da boca de um dos três cachorros da casa, que fatalmente o pegaria entre um pulinho e outro. Com certeza, seria um gesto natural, sem qualquer maldade, por puro interesse em brincar com algo que se move e que pia. Por segurança, deixei o filhote em um canteiro alto que existe do outro lado da rua, sob a supervisão aflita do pai e da mãe dele.

Isso me fez lembrar de Auê, um enorme fila brasileiro de uns poucos meses de idade, ainda completamente bobão e estabanado, olhando pra mim com cara de cachorro arrependido,  tão logo desci do carro. Ele parecia que nos aguardava para pedir desculpas sinceras pelo ocorrido trágico: um dos dois paturis que ganhei de presente não resistira às brincadeiras daquele cachorrão tigrado da língua enorme e olhar amistoso. Desconfiado, constatei que somente a fêmea estava no cercadinho que fizemos no canto do quintal, aproveitando a mureta da garagem. A expressão dela era de tristeza pela perda do companheiro, que só fui encontrar lá do outro lado da casa, seguindo os passos de Auê, que ia olhando pra trás enquanto caminhava em direção ao lugar em que a brincadeira com o patinho havia terminado.

Pois bem, há alguns dias vi uma sabiá voando com frequência para o fundo do quintal e, ao fazer uma rápida averiguação, dei de cara com um ninho, bem defronte da janela do meu quarto. Ele está em um galho do pé de graxa, a pouco mais de um metro do chão e a um tanto desse da parede da casa. Nele, dois filhotes esfomeados, ainda totalmente sem penas e de bico enorme, completamente desproporcional ao tamanho do corpo. Os bichos eram tão esquisitos que um dos meus netos ficou espantado e chorou quando os viu de pertinho. Para facilitar o trabalho da mãe sabiá, passei a colocar mamão na soleira da janela, bem na frente do ninho. Imagino que ela tenha apreciado a colaboração e que isso possa facilitar os meus entendimentos futuros com os seus filhotes.

Bom seria se os sanhaços, de porte parecido com o dos azulões e dos bicudos também fossem menos ariscos. De plumagem azul acinzentado, eles estão sempre em casais, em voos rápidos e mudanças bruscas de direção. Eles estão fregueses do pé de mamão papaia do vizinho, mas não permitem qualquer aproximação ou intimidade, como acontece com os canários da terra, as rolinhas e os cardeais, branquinhos de cabeça vermelha, que no nordeste são tratados por galos de campina.

Escrevi sobre passarinhos e cachorro para não falar da eleição, da qual saio com as mesmas emoções que senti quando a maioria dos brasileiros elegeu Fernando Collor de Mello para presidente do Brasil.

Vitória, 29 de outubro de 2014

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

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