Carestia

Carestia

Comecei o dia diante da falta de assunto para esta crônica. Passara os últimos dois dias procurando um qualquer, sem conseguir me desvencilhar do meu espanto com o preço da pizza que comemos na quinta feira passada, em uma pizzaria bem modesta que frequento há mais de vinte anos e onde se pode comer uma marguerita honesta. Trata-se de uma espécie rara de fidelidade, praticada sem ao menos receber sorrisos e gentilezas dos proprietários. Vigora um acordo tácito em favor da convivência respeitosa entre as partes, depois de um banzé que o nosso pessoal criou por uma longuíssima espera. Era uma mesa cheia de filhos e sobrinhos comemorando um aniversário de adolescente em fase de crescimento. A coisa ficou preta depois de constatarmos que um exército de motoboys operava em ritmo frenético para atender, com prioridade absoluta, os clientes que pediam pizza por telefone. É bom que se diga que a nossa revolta acabou ganhando a adesão dos demais fregueses famintos e, até então, bem comportados.

Desta vez, o lugar estava completamente vazio. As três atendentes fizeram o possível para nos agradar, mas não houve como manter a simpatia depois que a conta de mais de setenta e cinco reais nos foi apresentada. O preço da sobremesa, um tal pudim de sorvete caseiro, ajudava a tornar o valor totalmente descabido.

O assunto altos preços continuava a martelar a minha cabeça e ganhou ainda mais destaque quando fui comprar peixe ali na Praia do Suá para nosso almoço de um dia das mães atípico. Cação vendido a mais de vinte reais o quilo e camarão rosa oferecido, com algum constrangimento, por setenta e tantos reais. Para não perder a viagem, escolhi um realito fresquinho e três camarões graúdos, um para cada uma das nossas poucas bocas. Confesso que fiz isso me sentindo na Europa, onde se compra banana e laranja em unidades. Já não havia coentro nas bancas e o saquinho de tomates estava pela hora a morte. As peixarias já estavam às moscas, talvez pelo adiantado da hora ou, quem sabe, pela reação dos compradores. Em quase todas elas os freezers estavam cheios de peixes de boa idade, desses que têm as guelras bem escuras e os olhos sem qualquer brilho. É bem provável que seriam cortados em postas e filés na tentativa de esconder as marcas do tempo.

Na volta pra casa, encontramos nosso compadre, também um “sem mãe por perto”, e tratamos de convidá-lo para almoçar conosco. Morrendo de rir, contamos o que havíamos comprado e dissemos que, caso ele aceitasse o nosso convite, seria recomendável que comprasse o seu próprio camarão VG.

Ao passar as vistas nos jornais de hoje, ainda em busca de assunto, vi que a presidente da Petrobras está defendendo uma correção nos preços dos combustíveis, uma condição para que a empresa pare de acumular prejuízos. Os preços defasados da gasolina e do óleo diesel, somados a um conjunto de operações duvidosas e de investimentos malucos, jogaram o valor das ações da petroleira lá pra baixo. Sou obrigado a concordar com ela, embora saiba que tal reajuste terá impacto direto sobre os preços, inclusive das pizzas e dos camarões. Isso, sem falar das consequências do aumento da conta de energia elétrica que estão anunciando por aí, que poderá passar dos trinta por cento. Aqui, especialistas e, sobretudo, lobistas, argumentam que se trata de providência indispensável para salvar as empresas distribuidoras de energia, vitimadas que foram por ações e políticas governamentais, no mínimo, imprudentes, também implantadas de olho nas eleições.

Vitória, 13 de maio de 2014

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

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