Tema de crônica

Tema de crônica

O tema desta crônica me foi sugerido por uma estudante de uns quinze anos, de olhinhos azuis, próprios da gente pomerana que habita a região noroeste do Estado. Azuis de origem, brilhantes pelas emoções e apertadinhos pelo sorriso franco estampado no rosto. Estava radiante com o que acabara de vivenciar naquele galpão aberto, ao lado de uns quatrocentos colegas do turno da tarde.

Por volta de setembro recebi convite para falar sobre Rubem Braga para alunos de um colégio estadual em Nova Venécia, como parte de um projeto para incentivar o hábito da leitura. Se a mensagem escrita já era precisa, ao telefone as palavras da pedagoga demonstraram convicção. A curiosidade me fez dirigir por quase trezentos quilômetros sob chuva pesada, pensando no que iria encontrar. Na sala dos professores ficamos sabendo que todos os alunos da escola estavam às voltas com as coisas do cronista desde o começo do ano. E mais, que na semana seguinte haveria uma grande gincana com apresentações de paródias musicais, esquetes de teatro, coreografias e até questões sobre a minha falação. Como sobrinho do homem, relembrei histórias sobre sua personalidade marcante, seu temperamento arredio e algumas de suas manias. Nunca tive plateia tão atenta.

Não tenho experiência no trato com adolescentes. Não frequento pátios e salas desde os tempos do Colégio Salesiano, no começo dos anos sessenta. Lembro-me que os padres e seminaristas tentavam impor um ambiente de seriedade e disciplina, o que os bagunceiros, dentre os quais Afonso Paçoca, Ronaldo Gereréu, Arimatéia, Flávio Marta Rocha, Chico Virilha, Barrica e Erivelton, tratavam de subverter. Além de aulas aos sábados, tínhamos que frequentar a missa de domingo e fazer fila para carimbar ”compareceu” na caderneta. Há quem conte com ares de vitória que o pessoal arranjou um carimbo desses e, por algumas semanas, conseguiu fazer o serviço paralelo de carimbação.

Voltando à vaca fria, digo que, homem experiente que sou, fui levando minha mulher Carol, como fiel escudeira. Conhecedora da obra do Velho Braga, ela poderia ajudar bastante, inclusive fazendo leitura dramática de crônicas selecionadas para adolescentes. Santa providência: a garotada se acabou de rir durante a “Aula de inglês”, ouviu em silêncio “Matar”, escrita aos quinze anos, e acompanhou atentíssima o discurso de paraninfo para uma turma de normalistas em Cachoeiro que, dizem, foi lido por um amigo de infância porque o homenageado, rouco, declarou-se impossibilitado de ler o que escrevera. Imagino que por pura timidez e total aversão a homenagens.

Entusiasmada com a reação favorável da plateia, Carol tomou coragem e resolveu cantar o samba enredo da Unidos de Jucutuquara do carnaval passado, uma homenagem ao centenário de nascimento de Rubem Braga. Ela já havia cantado centenas de vezes aqueles versos durante os ensaios na quadra da escola e no desfile na avenida, sempre na condição de uma compenetrada ritmista da bateria. Ali, de microfone em punho mas sem a voz do puxador de samba e a ajuda de qualquer instrumento de marcação, ela tratou de explicar passagens da letra e ensinar o refrão em busca de adesões. Foi só começar a cantar que a garotada caiu no samba com entusiasmo e de alma leve, marcando o ritmo com palmas fortes. Como num passe de mágica, uma alegria enorme tomou conta do lugar. Por alguns minutos, instalou-se ali uma animadíssima festa de confraternização pelas boas coisas da vida, a ponto de alguém tomar coragem para sugerir que ficasse registrada em crônica.

Vitória, 13 de novembro de 2013.

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

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