Televisões com defeito
Os dois aparelhos de televisão da casa quebraram praticamente ao mesmo tempo, na semana passada. A maior delas, a que é utilizada coletivamente, simplesmente apagou de vez, sem ao menos fazer barulho, sem dar qualquer aviso prévio. O pessoal estava assistindo um dos filmes do Oscar quando a tela ficou preta e o sistema de som silenciou. É uma dessas televisões de quarenta e poucas polegadas, que nos foi dada de presente, há uns três anos. Além de ser bem fininha, nela veio embarcado o que havia de mais avançado na época, em termos de tecnologia. Tudo enaltecido nos anúncios massivos como sendo ultra, super, plus, advanced e por ai afora. Ao substituir a que funcionava direitinho há mais de duas copas do mundo, informaram que a imagem da nova como a dos cinemas. De quebra, os filhos contrataram um desses pacotes que disponibilizam dezenas de canais, muito mais do que um cidadão comum precisa para ser totalmente feliz durante o tempo em que permaneça diante de uma TV.
Normalmente não assisto novelas, programas de auditório, missas moderninhas, cultos variados para coleta de dízimo, seriados sobre o que acontece no setor de emergência de hospitais e em oficinas de reforma de carros, programas com adestradores de cachorros e de crianças mal educadas, profissionais que ensinam a arrumar casa, a emagrecer comendo pouco e a fazer musculação em aparelhos que fazem tremer o corpo inteiro e muitas outras atrações que não me interessam. Prefiro fazer colher, cozinhar, ler ou mexer nas plantas.
Sou desses que assistem noticiários nacionais, uma partida ou outra de futebol, quase sempre da seleção ou do Fluminense, alguns jogos de volei e futsal, filmes que só passam fora do horário nobre e uns poucos programas de entrevistas. Isso, sempre que estou sozinho ou quando posso aumentar o som para compensar a minha dificuldade auditiva. Gosto de filmes de aventura, que assisto sem som, tentando descobrir o fio da meada analisando as expressões e os trejeitos dos atores, imaginando o que teria se passado na cabeça do diretor. Gosto de tentar adivinhar a próxima cena: uma queda, um tiro, a traição do bandido, um beijo roubado. O pessoal que está ao lado reclama bastante, sobretudo quando acerto na previsão, acabando com a surpresa.
A televisão que está no quarto é aquela que estava na sala. É do tipo mais robusta e com cauda, um objeto do século passado, por assim dizer. Pois é nesse aparelho que mais exerço a minha condição de telespectador, sobretudo no fim do dia, antes de dormir. Ela estava funcionando perfeitamente bem até o meio da semana, quando apresentou defeito grave, desses que interferem drasticamente no relacionamento entre o homem e a máquina. É bom que se saiba que da imagem dela e do som nada tenho a reclamar: estão como sempre estiveram, exceto por estalos esporádicos, um treme-treme ocasional ou um pouquinho de chuvisco. O problema é que a danada da TV resolveu não mais aceitar ser comandada via controle remoto, esta sim, uma grande inovação tecnológica. Levantar da cama para uma simples troca de canal ou para apagar a TV é gesto obsoleto, impensável para os mais novos, um contra senso para quem se acostumou a comandar o espetáculo com um simples aperto de teclas.
O fato é que a vida na casa mudou. No fim de semana, os netos reclamaram da falta dos desenhos animados mas trataram de aproveitar outros atrativos disponíveis, incluindo cachorros, lápis de cor, pé de romã carregado, patinete, banho de mangueira e as pedrinhas do vovô.
Vitória, 05 de março de 2013
Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA
